ExposiçõesExhibitions . 2014 . VANDERLEI LOPES . TUDO QUE RELUZ É OUROVANDERLEI LOPES . Everything That Glitters is Gold

Tal como Midas, personagem mítico grego que transformava em ouro tudo que tocava, Vanderlei Lopes reúne trabalhos recentes que se relacionam ao nobre metal por sua aparência dourada, polida ou escovada, e pela autoria que transmuta objetos e acontecimentos triviais em obras de arte. Se a assinatura tornou-se insubstituível, sendo ela que atualmente define uma ação ou objeto como artístico, os trabalhos da exposição se fazem preciosos pelo acabamento e sedução que o emprego de materiais tradicionais sugere e porque às obras de arte atribui-se um valor que é monetário mas também simbólico.

Sem utilidade, as obras de arte são despesas improdutivas que cumprem socialmente funções, tais como: emulação, distinção social, prestígio, erudição, valores convertidos em capital cultural. É deste modo que Tudo que reluz é ouro fricciona as relações entre consumo, posse, fruição e produção artísticas, evidenciando os tênues limites entre valor de uso, valor de culto e valor de exposição. As peças que compõem a exposição salientam a capacidade da arte de iluminar pequenas coisas para torná-las preciosas, apesar de cotidianas. Neste universo demiúrgico, o artista transfigura-se em Midas, que transforma tudo o que toca em valor. Mas esse caráter reluzente, ao invés de dádiva, pode converter-se em maldição, já que todo brilho excessivo ofusca e mesmo cega. Afinal, o fogo, apesar de fascinante porque misterioso e hipnótico, queima.

Na mostra, a polidez das peças cria espelhamentos do espaço expositivo e das obras, transformando-as em imagens que fixam instantes. As esculturas se relacionam com a história da arte sem reproduzir a atemporalidade do monumento. Elas tensionam a sintaxe, levando em consideração aspectos formais e conceituais, tais como: autoria, tradição, valor, espaço, escala, material, volume, textura, peso, duração. A aproximação entre a produção do artista e a linguagem fotográfica se evidencia na luz que emana das peças e, também, na relação que estas estabelecem com a captação de situações. Os desenhos e esculturas atuam como flashes luminosos cujas texturas – granulações, riscos, marcas – sugerem a película fotográfica.

Em sua produção artística, Vanderlei Lopes mescla dados culturais e os quatro elementos naturais (fogo, terra, ar e água). Cria-se na galeria uma espécie de intervalo no qual as temporalidades do espectador e das obras se sobrepõem, evidenciando a noção de duração. Na experiência estética, o tempo é outro: o da desaceleração. Ao lidar com estados transitórios – a água escorrendo, a cadeira e o guarda-chuva tombados, as setas em movimentos de orientação e desorientação, a marca de um copo pingando -, o artista captura o clímax, ao mesmo tempo em que empreende uma operação “sinestésica” na qual relaciona toque e visão, espaço e tempo, chão e parede, água e fogo, verticais e horizontais. É assim que suas obras favorecem a iluminação profana, elogiada por Walter Benjamin.

Ao retirar a escultura de sua base ou pedestal, o artista a traz ao chão, em um movimento de horizontalização que é gráfico e simbólico. A água escoa e invade frestas, derrubando o que encontra pela frente. O estado líquido do bronze, quando incandescente, aponta para o processo de liquefação, desfazimento para construção da própria forma. Já os desenhos, por sua coloração vermelha e sua montagem verticalizada, se relacionam com o fogo e a lava do vulcão que buscam o céu mas queimam, destroem e mesmo petrificam. Fusão, ebulição e condensação, assim, são estados transitórios da matéria que aproximam a operação artística daquela pré-científica, alquímica. A transmutação de temas e materiais empreendida pelo artista, o faz alquimista cujas transposições vão desde Fra Angelico e Michelangelo (para quem a escultura já estava contida no bloco de mármore, cabendo a ele sua revelação), passando por Gian Lorenzo Bernini, Marcel Duchamp e Piero Manzoni. Se o alquimista estudava as transformações da matéria na busca pelo essencial, Vanderlei Lopes extrai brilho de enxurradas, tombamentos, escorrimentos e labaredas que, fascinantes, também anunciam desastres.

O artista empreende, assim, uma busca por acontecimentos poéticos que se relacionam a espaços prosaicos, salientando os potenciais estéticos de resíduos, quinas e chão. As obras da exposição favorecem epifanias, suspendendo espaço e tempo. Como aparições, as peças, tais como as revelações fotográficas e religiosas, afirmam que na arte as coisas são o que parecem ser, não importando se é ilusão ou “realidade”. O emprego do dourado enfatiza, então, a capacidade da arte de lançar luz sobre aspectos menos nobres, ou mesmo malditos da existência. Afinal, na arte, tudo que reluz é ouro, mesmo que tenha sido produzido com bronze.


FERNANDA PEQUENO

In the footsteps of Midas, the mythical Greek character that transformed everything he touched into gold, Vanderlei Lopes gathers recent works that relate to the noble metal by their golden, polished or brushed, appearance, and by authorship that transforms trivial objects and events into works of art. Signatures have become irreplaceable, being what nowadays “defines an action or object as artistic”. In this way, the pieces in this exhibition are made valuable by the polish and seduction that the use of traditional materials suggests, and because works of art are assigned with not only monetary but also symbolic value.

Without a use, works of art are unproductive expenses that fulfill societal functions such as emulation, social distinction, prestige, enjoyment and erudition, values that are converted into cultural capital. Everything That Glitters is Gold thus creates friction in the relations between consumption, possession and artistic production, highlighting the fine line between value in use, in worship, and in exposure. The pieces highlight art’s ability to illuminate small things and make them precious, common as they may be.  In this demiurgic universe, the artist is transfigured into Midas, transforming everything he touches into value. But this shiny quality, instead of a gift, can convert itself into a curse since anything that is excessively bright can obfuscate and even blind. After all fire, though fascinating because of its mystery and hypnotism, does burn.

In the show, polish on the pieces creates mirrors of the exhibition space and the pieces themselves, transforming them into images that fix other images. The sculptures relate to the history of art without reproducing the temporality of monuments. They tension syntax, taking into consideration formal and conceptual aspects such as: authorship, tradition, value, space, scale, material, volume, texture, weight and duration. The approximation between the artists’ production and the language of photography are made evident in the light that emanates from the pieces and also in the relationships that they establish capturing situations. The drawings and sculptures act as luminous flashes whose textures – granulation, scratches, and marks – suggest a likeness to photographic film.

In his artistic production, Vanderléi Lopes blends cultural figures and four natural elements (fire, earth, air and water). In the gallery a sort of interval is created in which the temporalities of the spectator and the pieces overlap, underscoring the sense of duration. In the esthetic experience, time is another, that of deceleration. In dealing with transitory states – trickling water, the fallen chair and umbrella, arrows motioning towards orientation and disorientation, the mark of a dripping cup -, the artist captures the climax while at the same time taking on a “synaesthetic” operation in which touch and vision, space and time, floor and wall, water and fire, vertical and horizontal are tied. In this way, his works are conducive to profane illumination as praised by Walter Benjamin.

By removing the sculpture from its base or pedestal, the artist grounds it in a graphic and symbolic movement towards the horizontal. Water flows and rushes into the gaps, knocking down whatever it finds in its way.  The liquid state of bronze, when incandescent, points towards the process of liquefaction, undoing itself so as to construct its shape. On the other hand, the drawings, in their red

coloring and vertical positioning, relate to fire and volcanic lava that reach towards the sky but burn, destroy and even petrify. Fusion, ebullition and condensation, thus, are transitory states of matter that bring the artistic and the pre-scientific, alchemistic operation, together. 

The transmutation of themes and materials that the artist undertakes makes him an alchemist whose transpositions go from Fra Angelico to Michelangelo (for whom a sculpture was already contained within the slab of marble, charging him with the task of its revelation), going on through Gian Lorenzo Bernini, Marcel Duchamp and Piero Manzoni. If the alchemist studied the transformations of matter searching for an essence, Vanderlei Lopes brings out brilliance from mudslides, fallings, spills, and flames that, though fascinating, also announce disaster.

The artist endeavors, in this way, to search for poetic happenings that relate to prosaic spaces, stressing the esthetic potential of residue, corners and floors. The artworks of this exhibition foster epiphanies, suspending space and time.  Like apparitions, the pieces, as photographic and religious revelations, maintain that in art, things are not what they seem, regardless of whether illusion or “reality”.  The use of golden emphasizes, this way, art’s capacity to set light on the less noble, or even damned, aspects of existence. After all, in Art, everything that glitters is gold, even if it is made out of bronze.

FERNANDA PEQUENO