ExposiçõesExhibitions . 2013 . RAQUEL VERSIEUX . A FEIRA DA INCOERÊNCIARaquel Versieux . Incoherence Fair

Raquel Versieux cria um sistema de duplos invertidos para se pronunciar sobre a obra de arte: vela e desvela tudo aquilo que possa se tornar um interrogar sobre o uso exploratório da produção do objeto artístico com o intuito de questionar os momentos de sua emergência no circuito da arte. Suas experimentações trazem uma visão sensível a respeito do lugar onde se situa a verdade de uma cena pelas disjunções, subtrações ou acréscimos usados como anteparos conceituais para a formulação de seu repertório plástico, como se estivesse criando um sistema ‘notacional’ para detectar singularidades nas fronteiras encrespadas da arte.

Nesta primeira exposição individual, suas obras vão atuar como um elemento ativo na inquieta emergência de sua interface com o espaço expositivo em uma constante interrogação sobre a natureza da arte. Raquel Versieux traz à tona uma espécie de confronto permanente ao articular momentos de crise e de desconstrução, como capítulos à parte para a constituição de um espaço de idéias dotadas de um sentido provisório e transitório, ao ativar a potencia da arte como um veículo de ação cultural. A artista revela a freima da sua consciência, que interage como uma interrogação a respeito do mundo ao seu redor, afirmando que teve que fazer barganhas mentais consigo mesma, refletir sobre o sistema de relações de trocas que dinamizam o processo de mercantilização da nossa sociedade.

Nas suas inquietudes relativas às interseções do fazer artístico com o lucrativo processo de circulação de bens no mundo, Raquel lança mão de vários meios experimentais – um alternância de suportes, sempre com um sentido erosivo, como se quisesse colocar algo entre parênteses. A sua relação com o campo da arte tem múltiplas entradas e parece transitar em territórios adversos: como é elaborada, qual a modalidade de sua atuação, o que determina a sua trajetória e seu nivelamento estético? Quais os seus mecanismos e atribuição de valores dessa produção e os agentes que mediam essa relação no circuito da arte?

O seu conteúdo crítico oferece outras possibilidades de interpretação da arte, uma espécie de estratégia de ressignificação, um outro continente, questionando a linguagem da arte em sua própria fonte. Sonda a virtuose do mundo das imagens e de sua representações, supõe uma visão crítica, algo que se dissolve e que sem cessar, se renova, nutrida por sua própria negação. Desse nascedouro, faz brotar uma outra obra com múltiplas ressonâncias. O ritual da arte ganha substância na sua prática processual, através de ações performáticas, onde o desdobramento crítico constitui o seu solo de fixação e afirma a sua vocação reflexiva. Raquel explora os aspectos conceituais através da origem verbal e poética de sua obra, como a erosão da linguagem que adquire uma forma descontínua pelo processo de sua constante repetição.

Seu interesse plástico e filosófico, seja através da pintura, da fotografia, do vídeo, da colagem, do desenho ou de instalação, indagam o já constituído; estão inscritos em uma esfera crítica de significados, em um labirinto de contradições e enigmas a serem decifrados. O que faz lembrar o escritor Harold Bloom: a aventura intelectual é tentar intensificar o que é sabedoria e aonde ela pode ser encontrada.

Estabelece relações de tensão e conflito ao desmaterializar a realidade imediata da arte pela atitude ‘extra-artística’, ao desfazer o objeto artístico pelo derramamento de lama nas superfícies da telas, adulterando e negando a sua própria corporeidade. A feira como um ato público de trocas, um feixe descontínuo onde tudo pode ser de todos ou de ninguém, está presente nas características lonas de plásticos azul e laranja das barracas, que prefiguram a forma de expor as obras de arte com o pressuposto de sua categoria mercantil, como uma forma de assegurar a sua comercialização, e ali já revela e anuncia o mecanismo de sua própria absorção, celebração e consagração da produção artística. Marcel Duchamp declarou que o artista nunca tem plena consciência de sua obra: entre as suas intenções e sua realização, entre o que quer dizer e o que a obra diz, há uma diferença.

No seu embate com os processos organizadores da arte e seus códigos vigentes, a artista adota uma atitude questionadora na tentativa de definir, afirmar ou diluir os contornos da tutela imposta à produção cultural, através de uma discussão sobre o estatuto da produção artística e seu papel diante de sua apreciação pelos espectadores e sua galopante absorção pelo mercado consumidor.

VANDA KLABIN 

Raquel Versieux creates a system of inverted doubles to declare herself regarding the artwork: she veils and unveils everything that could become an interrogation about her exploratory use of the production of the artistic object in order to question the moments of her emergence into the art circuit. Her experimentations bring a sensitive vision of where the truth of a scene lies, through disconnections, subtractions, or additions used as conceptual screens for the formulation of her artistic repertoire, as if creating a ‘notation’ system to detect singularities on the chopppy fronteirs of her art.

In this first solo exhibition, her works will serve as an active element in the restless emergence of their interface with the exhibition space, in a constant interrogation about the nature of art. Raquel Versieux brings to the surface a kind of ongoing confrontation in articulating moments of crisis and deconstruction, like chapters apart. These constitute a space of ideas endowed with a provisional and transitory sense in activating the power of art as a vehicle of cultural action. The artist reveals the impatience of her consciousness, which interacts with an interrogation about the world around her, affirming that she had to make mental bargains with herself, and reflect on the exchanges that streamline the commercialization process of our society.

In her concerns regarding the intersections of creating art with the lucrative process of circulating goods in the world, Raquel makes use of several experimental methods—toggled supports, always with an erosive effect, as if she wanted to put something between parentheses. Her relationship with the art field has multiple entries and seems to pass through adverse territories: how is it elaborated, what is the method its operation, what determines its trajectory and its aesthetic leveling? What are its mechanisms and the attribution of values ​​of this production and the agents that mediate this relationship in the art circuit?

Her critical content offers other possibilities of interpretation of the art, a kind of reframing strategy, another content, questioning the language of art at its own source. It probes the virtuosity of the  world of images and its representations, assumes a critical view, something which dissolves and is constantly renewed, nourished by its own negation. From this birthplace it brings forth another work with multiple resonances. The art of ritual gains substance in the process of her practice, through performative actions, where critical development constitutes her fixed ground and affirms her reflective vocation. Raquel explores conceptual aspects through the verbal and poetic origin of her work, and like the erosion of language acquires an intermittent form through the process of constant repetition.

Her artistic and philosophical interest, whether through painting, photography, video, collage, drawing or installation, scrutinizes the established now; they are inscribed within a critical sphere of meanings, in a maze of contradictions and enigmas to be deciphered. Which brings to mind the writer Harold Bloom: Intellectual adventure is to try to intensity what wisdom is and where it can be found.

It establishes relationships of tension and conflict by dematerializing the immediate reality of art through an ‘extra-artistic’ attitude, unraveling the art object by spilling mud on the surfaces of the canvases, adulterating and denying their own corporeality. The fair as a public act of exchange, an intermittent shaft of light where everything can be everyone’s or no one’s, is seen in the characteristics of the blue an orange plastic tarps of the stalls, which prefigure the way to display the works of art with the assumption of their commercial category. This is a way of ensuring their marketing, and there it already reveals and announces the mechanism of its own absorption, celebration and recognition of the artistic production. Marcel Duchamp said that artists are never is fully aware of their work: between their intention and realization, between what they mean and what their work says, there is a difference.

In their clash with the organizing processes of art and its current codes, artists adopt a questioning attitude in trying to define, assert or dilute the profile of the restrictions imposed on cultural production, through a discussion about the status of artistic production and its role in appreciation for the spectators and their rampant absorption by the consumer market.

VANDA KLABIN