ExposiçõesExhibitions . 2017 . PERMISSÃO PARA FALARPERMISSION TO SPEAK

“Será isso, apenas, a ordem natural das coisas?”, perguntava o velho porco Major logo no início do seu discurso, que acabou servindo de estopim para a Revolução dos Bichos.  Publicado em 1945, o livro de George Orwell, conta que, um belo dia, os animais da fazenda do Sr. Jones se dão conta de que a vida indigna a que são submetidos não é a ordem natural das coisas e, liderados por um grupo de porcos, expulsam o fazendeiro de sua propriedade desejando construir nela um lugar onde todos fossem iguais. Os sete mandamentos que constituiriam a lei inalterável pela qual a Granja dos Bichos deveria reger sua vida a partir da revolução foram sendo, aos poucos, adaptados, alterados e excluídos, até sobrar apenas um: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros” – a versão original, que dizia “Todos os animais são iguais”, foi alterada no meio da noite, sem que ninguém visse.
A exposição Permissão Para Falar reúne artistas cujos trabalhos tentam lidar com essa “ordem natural das coisas”. Em comum, todas as obras trazem referências ao discurso e à história como construções, com interesse especial nos usos e variações de significados que as palavras podem assumir, dependendo de quem fala, de quem escuta ou mesmo quando são silenciadas. Na ambiguidade guardada no título que aponta ao mesmo tempo para uma imposição (conceder permissão) e para uma demanda (exigir a permissão), a exposição reafirma seu interesse em pensar o lugar da fala e da escuta. Aqui, a produção contemporânea se apresenta como uma ferramenta potente de reavaliação e rearticulação da história, trazendo para o presente questões do passado cujo impacto pode ser sentido hoje e para frente.
A história é recuperada nos trabalhos de Beto Shwafaty. Em Anhanguera/Bandeirantes (2015), o artista propõe uma relação entre as missões de exploração do interior do país lideradas pelos bandeirantes com o desenvolvimento econômico, representado pelas principais vias de acesso ao interior do estado de São Paulo, que dão nome ao trabalho. Já em Abstrações Sujas (2015), o personagem principal é o EDISE, edifício sede da Petrobrás, localizado no centro do Rio de Janeiro. Apresentado como “símbolo do chamado Brasil grande” nos anos 1960 pela imprensa nacional, décadas depois teve sua imagem circulando novamente na mídia quando a Polícia Federal iniciou a primeira fase da chamada Operação Lava-Jato.
Outros símbolos nacionais oficiais também estão presentes na exposição. Em Bandeira Nacional (2015), de Jaime Lauriano reúne uma série de trabalhos que, a partir de técnicas de tecelagem artesanal, buscam subverter o controle e a regulação deste símbolo criado como um dos transmissores do sentimento de união nacional e soberania do país, e ferramenta de aproximação entre governo e população. Essa relação conturbada, também se apresenta em Vocês nunca terão direito sobre seus corpos (2015), do mesmo artista. Frases de racismo institucional, encontradas em comunicados oficiais e boletins de ocorrência da Policia Militar Brasileira, ganham corpo e presença quando entalhadas em madeira. Outro símbolo nacional, nossa constituição, é ponto de partida de Reconstituição (2008). Aqui, Lais Myrrha selecionou todas as páginas da Constituição Brasileira que têm a palavra “exceção”. Essa palavra, que aparece em destaque nas reproduções feitas pela artista enquanto todo o resto do texto fica desfocado, chama atenção para a flexibilidade de leitura das leis no país e, como consequência, a desigualdade nas suas aplicações. Os trabalhos de Lais e Jaime nos fazem pensar, a partir dos silêncios que trazem à tona, que não é só na fazenda do Sr. Jones que “uns são mais iguais que os outros”.
É justamente pelo silêncio, ou a impossibilidade/dificuldade de comunicação, que outros trabalhos se interessam, revelando o quanto este é tão importante quanto a fala na construção da História e dos discursos. Em Jardim de Guerra da Série Hoje tem cine (2015), Laura Belém cria letreiros em neon com títulos dos filmes que marcaram a história do Cine Palladium, que foi um dos cinemas mais importantes de Belo Horizonte. Na exposição, está o letreiro de Jardim de Guerra, de Neville D’Almeida, um dos muitos filmes recolhidos e censurados pela Ditadura Militar em 1968. Também interessado nos silêncios que constroem nossa h/História, o curta Entretempos (2015) de Yuri Firmeza & Frederico Benevides parte do material arqueológico encontrado na região portuária do Rio de Janeiro, fotografias, imagens de arquivo, documentos oficiais e de negociações dos escravos, para pensar o atual processo de gentrificação que atravessa, hoje, a cidade. Mas talvez nenhum silêncio seja mais historicamente incômodo que o revelado na video-instalação Nós-Tukano (2015) de Paula Scamparini. Enquanto, em uma das imagens, ouvimos o índio Carlos Doethiro Tukano, líder político e cacique da maior aldeia urbana no Brasil, a Aldeia Maracanã, narrar a história de sua terra para um grupo de crianças, em sua língua-mãe, no vídeo ao lado, que acompanha a fala de Doethiro, homens-brancos de diversas origens procuram reproduzir suas palavras mesmo sem entender seus significados.
Outro grupo de trabalhos aponta para o exercício, coletivo e individual, de construção de significados. Na série fotográfica O ensino das coisas (2015), Sara Ramos revela como é difícil definir certos conceitos ou palavras. O ponto de partida são cartazes encontrados pela artista em uma escola de design abandonada no Uruguai, onde os alunos tentavam expressar o conteúdo das palavras através de formas. Já em EEDDM I, V e VI (El encuentro de dos mundos), realizadas em 2013 por Vanderlei Lopes, as formas orgânicas das folhas, fundidas em bronze, apresentam recortes geométricos e precisos feitos pela mão do homem (recortes tão precisos que não encontramos na natureza). Aqui, os “dois mundos” citados no título, podem ser lidos como a natureza e a cultura, e a tentativa de construção de uma relação (não necessariamente amistosa) entre elas, a partir das folhas em partes e dos vazios ativos entre elas.
A exposição se completa com a série de fotografias de Diego Bresani. Se boa parte das obras reunidas aqui parte do pensamento de elementos da grande História (sem deixar de lado a certeza de que ela tem impacto sobre a vida individual), as obras de Bresani apresentam interesse sobre a dimensão mais pessoal dessa construção.  Suas fotografias, a maioria em preto e branco e registradas em filme, são como uma espécie de diário dos primeiros meses do artista em Paris – estrangeiro, sem falar a língua e quase sem se comunicar com as pessoas. A observação do mundo, suas paisagens e personagens, compõem a essência do trabalho, que tenta reconstruir sua própria história (de outra maneira que não a da fala) e sua relação com a prática da fotografia, depois de anos de trabalho em estúdio e com limites bem definidos.
Assim, Permissão Para Falar nos faz pensar que o mundo como o conhecemos, seja em sua dimensão mais pessoal ou em sua dimensão mais pública, é uma construção, uma invenção estabelecida e compartilhada (pacificamente ou não), e como tudo o que é inventado, é inventado por alguém, por algum motivo, muitas vezes com uma boa dose de esforço e “alternative facts”, deixando outras possibilidades e versões de lado, e por ser uma construção, poderia ser desfeito e reinventado a todo e qualquer momento. Toda h/História é uma questão de ponto de vista. Ou você acha mesmo que essa é a ordem natural das coisas?
FERNANDA LOPES

 

“Could this be just the natural order of things?” asked the old pig Major early on in his speech, which ended up serving as an incentive for Animal Farm. Published in 1945, the book by George Orwell, recounts that one fine day, Mr. Jones’ farm animals realize that the worthless life they’re subjected to is not the natural order of things. Led by a group of pigs, they run the farmer off his property, deciding to build a place where everyone is equal. The seven commandments that would constitute the unalterable law by which the Animal Farm should govern its life after the revolution were gradually adapted, altered and excluded, until there was only one left: “All animals are equal, but some animals are more equal than others “— the original version, which read “All animals are equal,” was changed in the middle of the night without anyone seeing.
The exhibition Permission to Speak brings together artists whose works try to deal with this “natural order of things.” What all the works have in common is that they bring references to discourse and history as constructions, taking special interest in the uses and variations of meanings that words can assume, depending on who is speaking, listening, or even when they are silenced. In the ambiguity hidden in the title, which points to an imposition (granting permission) and to a demand (requiring permission) at the same time, the exhibition reaffirms its interest in contemplating the place of speaking and listening. Here contemporary production is presented as a powerful tool for reassessing and rearticulating history, bringing to the present issues of the past whose impact can be felt today and in the future.
The story is recaptured in the works of Beto Shwafaty. In Anhanguera/Bandeirantes (2015), the artist proposes a relationship between the exploration missions to the interior of Brazil led by the bandeirantes (followers of the flag), and the economic development represented by the main access routes to the interior of the state of São Paulo, which give the work its name. In Abstrações Sujas (Dirty Abstractions) (2015), the main character is EDISE, the headquarters of Petrobrás, located in downtown Rio de Janeiro. Presented as a “symbol of so-called great Brazil” in the 1960s by the national press, decades later its image was circulated again in the media when the Federal Police began the first phase of the so-called Operation Car Wash.
Other official national symbols are also present in the exhibition. In Jaime Lauriano’s Bandeira Nacional (National Flag) (2015), he brings together a series of works which, through weaving techniques, seek to subvert the control and regulation of this symbol created as one of the transmitters of the feeling of national unity and sovereignty of Brazil, and a tool to bring the government and population together. This troubled relationship is also displayed in Vocês nunca terão direito sobre seus corpos (You will never have rights over your bodies) (2015), by the same artist. Institutional racism phrases, found in official communiqués and bulletins of occurrence of the Brazilian Military Police, gain body and presence when carved in wood. Another national symbol, our constitution, is the starting point of Reconstituição (Reconstitution) (2008). Here, Lais Myrrha selected all the pages of the Brazilian Constitution that have the word “exception.” This word, which appears prominently in the reproductions made by the artist while the rest of the text is blurred, draws attention to the flexibility of reading the laws in the country and, as a consequence, the inequality in their applications. The works of Lais and Jaime make us think, from the silences they bring to light, that it is not only on Mr. Jones’s farm that “some are more equal than others.”

It is precisely because of the silence, or the impossibility/difficulty of communication, that other works take an interest, revealing how this is as important as speech in the construction of History and discourses. In Jardim de Guerra – Série Hoje tem cine (War Garden – There’s Cinema Today Series) (2015), Laura Belém creates neon signs with titles from the films that marked the history of Cine Palladium, which was one of the most important movie theaters in Belo Horizonte. In the exhibition, there is the sign for Neville D’Almeida’s Jardim de Guerra, one of the many films withdrawn and censored by the Military Dictatorship in 1968. Also taking an interest in the silent films that construct our h/History, the short subject Entretempos (Interments) (2015) by Yuri Firmeza & Frederico Benevides comes from the archaeological material found in the port area of Rio de Janeiro—photographs, archive images, official documents and slave negotiations—to ponder the current process of gentrification that is spreading across the city today. But perhaps no silent film is more historically uncomfortable than the one revealed in Paula Scamparini’s video-installation Nós-Tukano (2015). In one of the images we hear the Indian Carlos Doethiro Tukano, a political leader and tribal chief of the largest urban village in Brazil, Aldeia Maracanã, tell the story of his land to a group of children, in his mother tongue, while in the video next to it, which accompanies Doethiro’s speech, white men of diverse origins seek to reproduce their words even without understanding their meaning.

Another group of works points to the exercise, collective and individual, of constructing meanings. In the photographic series O ensino das coisas (The Teaching of Things) (2015), Sara Ramos reveals how difficult it is to define certain concepts or words. The starting point are posters found by the artist in an abandoned design school in Uruguay, where students tried to express the content of words through forms. In EEDDM I, V and VI – El encuentro de dos mundos (The Encounter of Two Worlds), created in 2013 by Vanderlei Lopes, the organic forms of the leaves, cast in bronze, have geometric and precise cuts made by the hand of man (cuts so precise that they are not found in nature). Here, the “two worlds” cited in the title can be read as nature and culture, and the attempt to build a (not necessarily friendly) relationship between them.

The exhibition is completed by Diego Bresani’s photographic series. If much of the work gathered here is a departure from the thinking of elements of great History (without ignoring the certainty that it has an impact on individual life), Bresani’s works show interest in the more personal dimension of this construction. His photographs, mostly in black and white and recorded on film, are similar to a kind of diary of the year that the artist lived in Paris. Observation of the world, its landscapes and characters, make up the essence of the work, which endeavors to reconstruct its own history and its relation to the practice of photography, after years of work in the studio, and with well-defined limits.

And so, Permission to Speak makes us think that the world as we know it, either in its most personal or most public dimension, is a construction, an established and shared invention (peacefully or otherwise), and like everything invented, is invented by someone for a reason, often with a good dose of effort and “alternative facts,” leaving other possibilities and versions aside. And being a construction, it could be undone and reinvented at any moment. All h/History is a matter of point of view. Or do you really think that this is the natural order of things?

FERNANDA LOPES