ExposiçõesExhibitions . 2016 . Laura Belém . Histórias CurtasLaura Belém . Short Stories

A obra de Laura Belém instaura ambiguidades e questões filosóficas para pensar a contemporaneidade ao incorporar histórias periféricas como  um modo reflexivo de suas ações, entrelaçando diversos aspectos em sua constituição. O seu fazer artístico não se origina apenas no espaço silencioso e intimista do atelier, mas realiza a sua inscrição no mundo em uma esfera pública: ele reivindica a presença física do espectador, como se essa percepção fosse cumulativa para o processo de intervenção espacial. Essa necessidade de ser pública – a condição de uma obra que não se origina entre quatro paredes, implica uma exacerbação simbólica que se manifesta e se materializa neste caráter delicado e efêmero de aparecer no mundo, como se representasse a busca constante de uma arte que aparece e não aparece e que, de repente, neste jogo de oposições, retém uma forma singular de exteriorização.

O processo da arte é estar sempre perguntando; é um fluxo permanente de conhecimento, de uma nova ordem que vai adquirindo uma substantiva espessura e Laura Belém instaura a semente da pluralidade da visão, cria territórios simbólicos onde as impossibilidades se tornam presentes seja pelo deslocamento de situações espaciais, seja pelo esvaziamento do conteúdo original de objetos por adições e subtrações – como se quisesse afirmar uma realidade física que está prestes a se volatilizar. Resta apenas um resíduo sugestivo de narrativas anteriores, à espera de  novas camadas de significados. O núcleo de sua poética evoca um certo silêncio, um deslizar do seu olhar para um mesmo objeto de uso comum observado no cotidiano.

O olhar fica nesse vácuo, nessa espécie de vazio contido, como um fator de perturbação. As suas operações estéticas aderem decididamente às contradições e às ambiguidades que alteram as condições da nossa habitual percepção do mundo e fundamenta uma nova ordem de experiência ao ativar a matriz de informação com sua mitologia pessoal. Algo que já teve o seu sentido próprio, ganha um novo contexto ao produzir a imagem da imagem e indica um armazenamento de uma antimemória, incorpora o acaso e retém uma estrutura de códigos como algo que não pertence a ninguém.  Sinaliza um discurso silencioso através de um  jogo de subjetividades, ao esvaziar o teor significativo do conteúdo da matéria-prima e criar um novo continente de trabalho: ali o pensamento plástico se instala, criando fissuras e hiatos entre a imagem e aquilo que a representa.

Nessa desocupação, temos a experiência estética da ausência, do vestígio e o estabelecimento de um elo entre o coletivo das imagens que já estiveram ali presentes e  a sutil subjetividade da artista. O seu discurso interrogativo dialoga com a ressignificação de uma imagem original, tensiona o mundo real ao subtrair de sua função original algo já sedimentado, aquilo que estava lá e estabelece um instante enigmático que nos confronta com a desconcertante complexidade da  relação entre a realidade e a sua representação.

VANDA KLABIN

Laura Belém’s work introduces ambiguities and philosophical issues to ponder contemporaneousness when incorporating peripheral stories as a reflective mode of its actions, interweaving various elements in its composition. Her artistic work does not originate only in the quiet and intimate space of the studio, but undertakes its application in the world in a public sphere: it demands the physical presence of the viewer, as if this perception were cumulative for the process of spatial intervention. This necessity to be public, the condition of a work that does not originate among four walls, implies a symbolic exacerbation which manifests and materializes itself in this delicate and ephemeral character of appearing in the world as if it represented the ongoing search for an art that appears and does not appear, and that suddenly, in this game of oppositions, retains a unique form of externalization.

The process of art is always asking; it is a continuous flow of knowledge, of a new order that acquires a substantive density. Laura Belém introduces the seed of plurality of the vision, creates symbolic territories where impossibilities become present, either by displacement of spatial situations, or by emptying the original content of objects—as if she wanted to assert a physical reality that is about to vaporize. Only a suggestive residue of previous narratives remains, waiting for new layers of meaning. The core of her poetics evokes a certain silence, a shifting of her gaze to an identical object in common use observed in daily life.

The gaze remains in this vacuum, this sort of contained emptiness, as a factor of disturbance. Its aesthetic operations adhere firmly to the contradictions and ambiguities that alter the conditions of our habitual perception of the world and substantiates a new order of experience to activate the information matrix with its personal mythology. Something that has already had its own meaning gains a new context while producing the image of the image, and indicates a storing of an anti-memory. It incorporates chance, and retains a structure of codes as something that does not belong to anyone. It signals a silent discourse through a game of subjectivities upon emptying the significant tenor of the contents of the raw material, and creates a new continent of work: moldable thought is installed there, creating fissures and gaps between the image and what it represents.

In this evacuation, we have the aesthetic experience of the absence, of the vestige and the establishment of a link between the collective of the images that were already present there and the subtle subjectivity of the artist. Its interrogative discourse dialogues with the reinterpretation of an original image, urges the real world to subtract something already encapsulated, that which was there, from its original function, and establishes an enigmatic moment that confronts us with the baffling complexity of the relationship between reality and its representation.

VANDA KLABIN