ExposiçõesExhibitions . 2014 . JOANA CESAR . NOMEJoana Cesar . Name

O CONTÍNUO ATO DE NOMEAR

Nome, exposição individual de Joana Cesar na Galeria Athena Contemporânea, reúne um conjunto de trabalhos recentes, concebidos a partir de sobreposições de camadas de papeis retirados de outdoors e muros da cidade, assim como de imagens pessoais ou ligadas ao universo íntimo da artista. No espaço de cada tela, memórias reais e inventadas, claras e muitas vezes imprecisas, atravessam-se, aproximam e se afastam, emergem em sua superfície ou são intencionalmente encobertas. Constituem-se, assim, por meio do acúmulo de inúmeras camadas, sedimentos de formas, linhas, cores e texturas, manipulados intermitentemente, a partir do ato de criação/elaboração da artista.

Ao nos depararmos com esses objetos, podemos logo concluir: aquilo que é visível aos olhos encontra-se apenas na superfície da tela. O gesto de Joana Cesar é o de uma arqueóloga às avessas, que, ao invés de cavar, provoca o soterramento dessas imagens, histórias e memórias. No entanto, ao promover o apagamento literal das camadas subjacentes de cada trabalho, a artista metaforicamente as escava, em busca dos significados mais profundos contidos nesses elementos e em seu processo. Como corpos, tais objetos trazem impressos em sua epiderme as marcas das histórias e procedimentos que os trouxeram à vida.

Dar forma é também dar significado. O processo de produção dos trabalhos de Joana Cesar guarda uma relação simbólica com a gestação, com a formação de algo que vem ao mundo à procura de um nome. O ato de nomear está relacionado ao processo de construção de sentido e não se concretiza  no momento em que o objeto se finaliza. Há sempre uma historieta que é anterior ao próprio vir a ser do processo de constituição. Por isso, instituir um nome não é apenas definir como designar esse algo, mas atribuir significados a certos significantes – imagens, traços, lapsos, memórias –, no momento em que aparecem e desaparecem, adquirem maior ou menor importância quando colocados em relação.

Buscar esse nome – e não seu título, é preciso deixar claro – faz parte do ato de inscrição da obra no mundo, objeto em permanente estado de ansiedade. Os trabalhos de Joana Cesar nascem da inquietação da artista, de sua contínua vontade de (re)significar os fragmentos de memória que coleta e de dar forma a algo que não se define – e não se permite definir de todo – pela linguagem verbal. Ao expor essas telas, a artista compartilha conosco essa vontade e essa inquietação. Construir sentido é nomear o impreciso, aquilo que não conseguimos dimensionar completamente, pois guarda um pouco do mistério de sua origem, daquilo que é indecifrável, e é próprio do fluxo da vida. Há vida!

IVAIR REINALDIM

THE CONTINUOUS ACT OF NAMING

“Nome” (Name), Nome” (Name), Joana Cesar’s individual exhibition, brings together a body of recent work conceived by overlaying scraps of paper removed from billboards and walls in cities, with images that are personal or connected to the artist’s intimate universe. Within the space of each canvas, real, invented, clear and imprecise memories cross one another, join, and distance themselves; emerge in its surface or are intentionally covered. They are constituted, in this way, by the accumulation of countless layers, sediments from shapes, lines, colors and textures, manipulated intermittently, through the artist’s act of creation/elaboration.

In coming face-to-face with these objects, we can soon come to the conclusion that what is visible to the eye is found only at the canvas’ surface. The artist’s gesture is like that of an upside-down archeologist who, instead of excavating, buries these images, stories, and memories. On the other hand, by promoting the literal obliteration of underlying layers in each piece, the artist metaphorically excavates them, searching for hidden meanings contained within these elements and her process. As do bodies, such objects have imprinted on their epidermis, traces from the stories and procedures that brought them to life.

To shape something is also to give it meaning. Joana Cesar’s process of production of her work holds a symbolic relationship with gestation, the shaping of something that seeks to come into the world in search of a name. The act of naming is related to the process of constructing meaning and doesn’t materialize the moment the object is finished. There is always a tale that comes prior to the act of becoming in the process of constitution. That is why giving a name is not only to define how one designates something, but also to give signification to certain signifiers – images, traces, lapses, and memories –, the moment they appear and disappear, acquire greater or lesser importance when put into relation.

To search for this name – and not it’s title, to be clear – takes part of the act of conscripting artwork into the world, an object in permanent state of anxiety. The works of Joana Cesar are born from the artists disquiet, from her everlasting wish to (re)signify the fragments of memory she collects and to give shape to something that cannot be defined – and does not allow itself to be entirely defined – by verbal language. In showing these pieces, the artist shares with us this desire and this unquiet. Building meaning is to name the imprecise, that which we cannot completely gauge, for it holds a little of the mystery of its origin, of that which is indecipherable, and is the very flow of life. There is life!

IVAIR REINALDIM