ExposiçõesExhibitions . 2017 . Joana Cesar . A ponte (onde ele disse que não posso ir)Joana Cesar . The bridge (where he told me I can't go)

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Quase duas décadas depois do ocorrido que será narrado logo abaixo, Joana Cesar passou a fazer caminhadas diárias por um mesmo trajeto específico: a passagem de um quilômetro que se abre entre o Jardim Botânico e o Jockey Club, na cidade do Rio de Janeiro. A medida que o percurso era sacodido e esmiuçado à exaustão, o que passava despercebido por aqueles conduzidos pela urgência do cotidiano a atingia com tudo: o fluxo de pedestres e ciclistas na calçada espremida e fatiada por eventuais postes; os ônibus e carros vindo na direção oposta com suas lufadas incontornáveis; o vento, ou a falta dele; o movimento insólito repentino de algumas folhas; a forma como certas árvores crescem diferentemente das demais; ou um pedaço de rio desviado, debaixo de uma ponte discreta, com peixes que ficaram presos ali sabe-se lá desde quando.

É como se a soma desses pequenos fenômenos instalados naquela área estivesse ligada a uma fenda no conturbado urbano, algo capaz de provocar uma conjugação espiritual arrebatadora que, de repente, nos faz perceber além do arranjo material das coisas. Como numa hora instável, em que o suspense vive no interior de cada pedaço, naquele instante era possível sentir a energia concentrada entre a o gradil do parque e a grande parede do outro lado da rua.

Cada visita ao local significava ir ao encontro do acontecimento, do evento.

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Uma pessoa atravessando a rua capta a atenção de olhos cercados pelas janelas do automóvel mas em tudo comprometidos com os fenômenos de fora. A figura, que vestia-se com um chapéu feito de caixa de papelão, moletom roxo, calça jeans mijada dobrada no meio da canela, duas sandálias plataformas — um pé diferente do outro — e uma mochila com motivos infantis, se move com passos cadenciados, trazendo consigo uma série de aparatos e gambiarras. Logo avança diante dos carros, que são obrigados a frear subitamente. Enquanto suspendiam-se o barulho das engrenagens, surgia o ruído de um galão de plástico vazio sendo arrastando pelo asfalto por um corda amarrada ao pulso do homem.

A observadora era Joana, que salta do carro e se põe a segui-lo. Se ele a percebe, não se opõe a sua presença e segue adiante. Uma câmera é sacada para registrar suas ações. É descoberta sua identidade: José Carlos Telefônica Mundial. Em um dado momento, ele para. Levanta um pé do chão, depois o outro, e por fim o primeiro de novo. Saca da cintura um apetrecho que coloca ao lado do rosto. No meio da calçada, se vira para o asfalto e usa o galão como banco. É um espelho o que ele mantém perto dos olhos. É com isso que ele cessa o caminhar. É por ali que ele passa a ver o mundo e encarar o outro. O espelho é seu dispositivo de contemplação. O espelho é sua fresta.

Durante mais de um ano, as caminhadas de Joana por aquela passagem viraram um destino. Era preciso experimentar o trajeto inúmeras vezes.  Era preciso tatear com mais afinco tantas provocações. Era preciso se dar conta do tanto que se esconde e do tanto que se revela a qualquer momento, numa travessia qualquer. Era preciso ir e voltar. Era preciso andar sob o tino de muitos vetores e sentidos. Era preciso desenhar mapas do lugar através de uma cartografia particular, fotografar seus absurdos corriqueiros com o celular. Era preciso dar nomes as coisas que ainda não tinham nome. Era preciso sentir e entender mais daquela atmosfera obscura e sensual, que vinha à tona sempre que seu corpo percorria aquele espaço.

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Vasculhando seus arquivos digitais a artista encontra as fotos e os vídeos que fizera do rapaz na rua cerca de 17 anos atrás. No momento seguinte, se dá conta que o encontro se deu exatamente no lugar daquela passagem que agora era o objeto que mobilizava tanto seus afetos e seus esforços.

O remetente encontrava — em cheio — em si mesmo, tempos depois, um destinatário.

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Agora Joana reúne aqui trabalhos — expostos como fragmentos de um diário — que registram, comentam e também codificam o núcleo desse encontro. Um encontro maior fracionado em muitas partes, fases e dobras. Pois nele está o encontro da fisicalidade que compõe o trajeto com o esotérico imaterial que pode nos assaltar sem aviso quando estamos ali; o encontro com o homem que andava pela rua naquele dia do ano 2000; o encontro com os próprios registros que a artista fizera e deixara guardado por tantos anos; o encontro com o estranhamento que existe em qualquer detalhe; o encontro entre documento e ficção; e por fim, o encontro de sua subjetividade com o interlocutor que agora se vê diante de parte de seu repertório mais íntimo.

São colagens, fotografias e vídeos que existem por vias objetivas e outras menos claras. Mas em tudo fica marcada a autonomia da artista em suas andanças, e suas relações mais intensas com a imaginação possível, a fantasia extravagante, impregnada na rua. São ações que dão conta do momento em que o acontecimento, o evento, se abre para quem quiser o perceber.

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Se a ponte conecta, inevitavelmente, também se coloca como a medida da distância. Joana trafega pelas pontes — materiais, metafóricas ou mentais — com obstinação. Nesse processo de aventura e repetição, a artista parece querer dissecar tudo que lhe diga respeito, tanto o quanto lhe seja possível. Mas não para que possa entender integralmente cada aspecto do caminho, e sim para que possa vislumbrar a terrível — e implacável — dimensão do distanciamento. O hiato entre partida e chegada, entre ocorrência e percepção, entre código e decifração.

GERMANO DUSHÁ

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Nearly two decades after the event narrated below, Joana Cesar began to take daily walks along a same specific path: the kilometer-length passage that runs between the Botanical Garden and the Jockey Club in the city of Rio de Janeiro. As the route was jolted and broken up to the point of destruction, what went unnoticed by those driven by the urgency of daily life affected her with all of it: the flow of pedestrians and cyclists on the sidewalk squeezed together and separated ​​by posts here and there; buses and cars coming in the opposite direction with their unavoidable honking; the wind, or lack thereof; the unusual sudden movement of some leaves; the way certain trees grow differently from others; or a patch of river detoured under a discreet bridge, with fish that have been trapped there for who knows how long.

It is as if the sum of these small phenomena in that area were linked to a rift in the urban turbulence, something capable of provoking a rapturous spiritual alliance that suddenly makes us perceive beyond the material structure of things. As in an unstable time, where suspense lives inside each part, at that moment it was possible to feel the concentrated energy between the park’s railing and the large wall across the street.

Each visit to the area meant going to meet the happening, the event.

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A person crossing the street catches the attention of eyes enclosed by car windows but in every way committed to the phenomena outside. The figure, who wore a hat made of a cardboard box, a purple sweatshirt, jeans wet with urine rolled halfway up his shins, a different platform sandal on each foot—and a filthy backpack with children’s motifs on it, moves with rhythmic footsteps, carrying with him a bunch of  gadgets and trappings. Then he steps in front of the cars, that are forced to brake suddenly. As the noise of the gears dies down, comes the sound of an empty plastic gallon can dragged along the asphalt by a rope tied to the man’s wrist.

The observer was Joana, who jumps out of the car and follows him. If he sees her, he doesn’t object to her presence and keeps moving. She takes out a camera to record his actions. His identity is discovered: José Carlos Telefônica Mundial. At a certain moment, he stops. He lifts one foot off the ground, then the other, and finally the first one again. He pulls some contraption from his waist that he puts next to his face. In the middle of the sidewalk, he turns toward the asphalt and uses the gallon can as a stool. It’s a mirror that he holds close to his eyes. At that point he stops walking. That’s when he starts to see the world and face others. The mirror is his device for contemplation. The mirror is his opening.

For more than a year, Joana’s walks through that passage became a destination. She needed to experience the itinerary countless times. She needed to probe so much provocation more insistently. She needed to realize how much is hidden and how much revealed at any given moment, at any crossing. She needed to go back and forth. She needed to walk with the awareness of many angles and senses. She needed to draw maps of the place with a particular cartography, to photograph its mundane absurdities with her cell phone. She needed to give names to things that didn’t yet have names. She needed to  feel and understand more about that dark and sensual atmosphere that surfaced whenever her body moved through that space.

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Combing through her digital files, the artist finds the photos and videos she had taken of the young man on the street about 17 years ago. In the next moment, she realizes that the meeting happened exactly in the part of that passageway that was now the object that so mobilized both her affections and efforts.

The sender found—fully—in herself, sometime later, a recipient.

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Joana is now bringing works together—exposed as fragments of a diary—which record, comment, and also codify the core of this encounter. A greater encounter broken up into many parts, phases and folds. For in it is the encounter of the physicality that composes the itinerary with the immaterial esoteric that can assault us without warning when we are there; the encounter with the man who walked down the street that day in the year 2000; the encounter with the very records that the artist had made and kept for so many years; The encounter with the strangeness that exists in any detail; the encounter between document and fiction; and finally, the encounter of her subjectivity with the spokesperson who now sees herself before a part of her most intimate repertoire.

These are collages, photographs and videos that exist through objective channels and others that are less clear. But in everything, the autonomy of the artist is marked by her wanderings and her intense as possible relations with her imagination, and the extravagant fantasy that pervades the street. They are actions that are aware of the moment in which the happening, the event, opens up for those who want to perceive it.

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If the bridge connects, it inevitably is also placed as a measure of distance. Joana travels over bridges—material, metaphorical or mental—with obstinacy. In this process of adventure and repetition, the artist seems to want to dissect everything that concerns her, as much as possible. But not so that you can fully understand every aspect of the journey, but so that you can glimpse the terrible—and relentless—dimension of detachment. The gap between departure and arrival, between occurrence and perception, between code and deciphering.

GERMANO DUSHÁ