ExposiçõesExhibitions . 2013 . ENTRECRUZAMENTOSCrossovers

O conjunto de obras proposto é um painel significativo de artistas atuantes no cenário da fotografia. Esta mostra nasceu de um diálogo visual entre os trabalhos aqui apresentados, tendo o corpo como elemento constitutivo para sua realização, como um fluxo poético em suas múltiplas enunciações e desdobramentos conceituais, primordiais para a constituição do imaginário contemporâneo.

As configurações plásticas da visualidade corporal adquirem matizes diferenciados, na medida em que ali estão inquietudes e fantasias, um verdadeiro laboratório de experimentos artísticos das particularidades da presença do corpo. O filósofo Maurice Merleau-Ponty, ao comentar a respeito do corpo como espaço de representação, afirma que ser corpo é estar atado a um certo mundo e o nosso corpo não está primeiramente no espaço: ele é o espaço. O ponto nodal é retratar o seu próprio eu ou o outro como centro de ordenamento deste processo repleto de intersubjetividades, por meio de diferentes escolhas artísticas: a destituição da imagem original através da dissimulação ou simulação do corpo físico; a exacerbação sensorial em seus nus apolíneos; o reagenciamento ou apropriação de um vocabulário de ícones históricos; a problematização da imagem corporal provocadora em parceria com recursos linguísticos ou textos de cunho político.

As particularidades da presença corporal, como elemento ativo e propulsor, ganha substância poética em vários artistas. O registro da imagem corporal envolve uma série de implicações sensoriais, uma estreita vinculação discursiva com os meios pictóricos. Yves Klein registrou em suas ações performáticas a impressão dos corpos banhados na emulsão de pigmento azul – os pincéis vivos, pressionados na superfície da tela. Robert Rauschenberg desmaterializou uma silhueta feminina nua, que flutua atravessada pela exposição foto sensitiva, em impressões fotográficas sobre papel azul. Piero Manzoni utiliza o corpo como uma escultura viva e material artístico, conferindo um certificado de autenticidade ao fundir a ação e o registro desse ritual. Francis Bacon utilizou as sequências fotográficas de corpos em movimento de Muybridge, para realizar a decomposição e fragmentação do corpo em suas obras. Lygia Clark e Hélio Oiticica, responsáveis pelas transformações da arte brasileira nos anos sessenta, radicalizaram a linguagem do corpo ao criar obras, que se completam através experiência direta e sensorial do espectador, que se incorpora à própria obra.

A dissolução destas particularidades cria uma polissemia interna entre as obras – que atuam como elementos conectivos -, como uma espécie de alinhamento em sintonia, uma integração que traduz essa pluralidade de experiências estéticas na trajetória de cada artista aqui apresentado. A representação do corpo constitui o solo de fixação para esta mostra, um olhar com múltiplas inscrições, que se oferece como uma experiência do fazer artístico: obras com graus de aproximações diferenciados, interseções ou atritos entre si, territórios onde se instalam as ambivalências, outras densidades, que atuam sobre estas tessituras desiguais e com ressignificações imprevisíveis.

Neste jogo de construção de um itinerário estético e repertórios diferenciados do agenciamento do corpo através do registro fotográfico, estes artistas, protagonistas de deslocamentos constantes do seu próprio eu, exploram outros territórios, que se oferecem ao nosso olhar como uma corporificação poética da captura de uma imagem. Reinventar os limites físicos do corpo como um elemento ativo e estrutural, que se transforma em acontecimento plástico, em um receptáculo para inúmeras experiências sensoriais, produz curtos-circuitos, desconfortos, equações visuais que, nesta inquieta emergência de sua estrutura transitória, parece nos interrogar sobre o seu sentido e sua direção, como um trajeto da consciência, como uma membrana, que interage entre nós e o mundo real.

A coletiva Entrecruzamentos propõe experimentações, que afloram infinitas possibilidades, sucessivas camadas de interpretações, uma espiral infinita de leitura, potencializando outras verdades para o nosso imaginário. Estes contrapontos visuais exercitam nosso olhar e reivindicam um caminhar pelas fendas e frestas destas lentes fotográficas.

VANDA KLABIN

The series of works proposed is a significant panel of artists working in the photography scenario. This show was conceived from a visual dialogue among the works presented here, with the body as a determinative element in its execution, as a poetic flow for its multiple utterances, and conceptual, primordial developments for the formation of contemporary imagination.

The artistic configurations of corporeal visuality acquire different nuances, wherever there are concerns and fantasies in them—a true laboratory of artistic experiments of the details of the body’s presence. The philosopher Maurice Merleau-Ponty, commenting about the body as a space of representation, says that to be a body is to be tied to a certain world, and our body is not primarily in space: it is space. The key point is to portray your own self or another as a ordering center for this process, so filled with intersubjectivities, through different artistic choices: the dismissal of the original image by dissimulation or simulation of the physical body; sensorial exacerbation in their Apollonian nudes; the renegotiation or appropriation of a vocabulary of historical icons; the problematics of the provocative body image in partnership with linguistic resources or texts of a political nature.

The details of bodily presence as an active and propellant element gain poetic substance in various artists. Recording the bodily image involves a series of sensorial implications, a close discursive connection with pictorial methods. Yves Klein recorded in his performances the impression of bodies bathed in an emulsion of blue pigment—living brushes pressed on the surface of the canvas. Robert Rauschenberg dematerialized the outline of a naked female figure floating, passed over by his sensitive exposure in photographic prints on blue paper. Piero Manzoni uses the body as a living and material artistic sculpture, giving a certificate of authenticity to consolidate the action and registration of this ritual. Francis Bacon used photographic sequences of the Muybridge bodies in motion to create the decomposition and fragmentation of the body in his works. Lygia Clark and Hélio Oiticica, responsible for transformations in Brazilian art during the sixties, radicalized body language by creating works that are completed through the direct sensory experience of the viewer, who is incorporated into the work itself.

The dissolution of these characteristics creates an internal multiplicity of meanings among the works—which act as connecting elements—as a kind of alignment in sync, an integration that translates this plurality of aesthetic experiences in the trajectory of each artist presented here. The representation of the body is the solid ground for this show, a vision with multiple recordings that is offered as an experience of art making: works with degrees of various approaches, interchanges or friction among them, territories where ambivalences are established, and other densities, which act upon these unequal contextures and unpredictable reinterpretations.

In this activity of building an aesthetic itinerary and various repertoires in negotiating the body by recording it photographically, these artists—protagonists of constant changes in themselves—explore other territories, which are offered to our view as a poetic embodiment of capturing an image. Reinventing the physical limits of the body as an active and structural element that becomes an artistic event in a vessel for many sensorial experiences, produces short circuits, discomfort, and visual equations that, in this restless emergency of its transitional structure, seem to question us about their meaning and direction, as a path of awareness, as a membrane that interacts between us and the real world.

Collective crossovers propose experimentation that delineate infinite possibilities, successive layers of interpretations, an endless spiral of readings, making other truths possible to our imagination. These visual counterpoints exercise our perception and demand a walk through the cracks and crevices of these photographic lenses.

VANDA KLABIN