ExposiçõesExhibitions . 2015 . Débora Bolsoni . Urbanismo GeralDébora Bolsoni . General Urbanism

MODOS DE APRESENTAÇÃO

Grande parte do trabalho de Débora Bolsoni surge da investigação sobre estratégias de exibição. Os dispositivos que ela elabora, sejam estantes, carrinhos ou painéis, são ao mesmo tempo suportes para mostrar a obra e também a própria obra. É curioso perceber um parentesco entre o modo como Débora Bolsoni e muitos curadores pensam. Ambos estão interessado na expografia e em tudo que diz respeito ao ambiente e ao mobiliário usado numa mostra. Sem dúvida o modo como um trabalho é exposto passou a ser tão importante quanto o que está sendo exposto. Para a artista não há uma separação entre “o que” e “como” o trabalho se apresenta para o público.

Suas peças condensam esse duplo aspecto de estarem sob o olhar do visitante e, ao mesmo tempo, se camuflarem, como se estivessem lá para serem dispositivos de exibição de outras peças. Os objetos que estariam na estante constituem a estrutura que a sustenta, tal como uma estante de livros feita de livros. Mas os livros da artista são de azulejos, e por isso se confundem com uma parede.

Os trabalhos de Débora Bolsoni possuem um tempo de maturação expandido. Eles ficam no ateliê, parados, sendo vistos e revistos pela artista durante anos. Além disso, há um deslocamento de alguns materiais que ela usa em relação ao seu próprio tempo. Não por acaso os livros feitos de revestimento cerâmico são garimpados em cemitérios de azulejos que guardam exemplares remanescentes, placas com padrões fora de linha, descartados pela indústria da construção civil e fora de moda por um certo gosto médio.

Não só os materiais perduram em sua poética. Algumas formas são exibidas e depois reaparecem em nova configuração, tanto retomando seu sentido inicial quanto se ampliando. É o caso de Splash, que já foi mostrado como um calendário em papel rosado e que se tornou uma grade, uma espécie de portão, um fragmento da cidade que faz a mediação entre o espaço público e o privado. O padrão do gradil tem algo de doméstico, mas não deixa de ser um instrumento de segregação. As grades e lanças são signos recorrentes na trajetória de Debora Bolsoni. Elas já foram elementos autônomos e agora reaparecem nas estantes. As grades guardam tanto um apelo por segurança, evocando o enclausuramento da vida social, como também padrões e desenhos bastante sutis.

Justaposto numa malha de metal, o formato splash, proveniente de anúncios publicitários, é um elemento vazado, um suporte para uma oferta ou aviso que costuma estar ali. A forma é feita para chamar atenção em liquidações do comércio. Produtos e cifras são o que geralmente preenchem esse oco contornado com linha em zig zag vibrante. No universo das histórias em quadrinhos seria como um balão contornado por triângulos pontiagudos que indicam uma explosão ou que representa um grito. Mas antes de tudo eles são  aqui signos do consumo, um emblema, tema caro para a artista, do modo como nos relacionamos com as mercadorias.

A peça central da mostra é uma alusão a uma figura simbólica, como os distintivos e insígnias usados para representar sociedades o instituições. Mas aqui, trata-se de uma tampa de bueiro tal como as encontradas na cidade, com um tecido que a encobre parcialmente, deixando apenas uma faixa vertical visível. Mas nessa espécie de brasão não há qualquer escrita ou elemento que possua tradução. A relação com o campo da heráldica é indireta. Há um certo enigma e opacidade no trabalho, ao mesmo tempo que uma abertura de sentidos.

Um fragmento da cidade, deslocado de sua função original, é um modo de trazer para o espaço da galeria um signo da urbanidade. Mas nessa peça há também um tecido com detalhes delicados, bordas e dobras que geram formas triangulares que compõem um quadrilátero. Apesar do contraste entre o tecido,  elemento mais íntimo e privado, com a brutalidade da tampa de metal, o trabalho se organiza como uma unidade indivisível.

Figuras recorrentes na trajetória de Débora Bolsoni se transformam em estampas decalcadas em placas de cerâmica. Para serem fixadas, as placas retornaram ao forno. Desenhos da artista passam a dialogar com as estampas originais dos azulejos. Splash se transforma, por exemplo, numa espécie de selo. Esse conjunto de revestimentos cerâmicos estão disponíveis para serem consultados num carrinho de reposição, como numa feira de estampas, um showroom de materiais de construção. O que interessa para a artista é justamente aqueles elementos que escapam do projeto arquitetônico e que estão entre a decoração de interiores e um item básico da casa. Aquilo que o cliente escolhe num mostruário, seja tecido, estampa, móvel ou azulejo.

A presente mostra, a primeira individual que Debora Bolsoni faz no Rio de Janeiro, é uma espécie de apresentação de seu vocabulário e repertório de formas. Uma introdução aos seus objetos indeterminados que aliam modos de apresentação com signos do consumo presentes na construção civil.

CAUÊ ALVES

Forms of Presentation

The inspiration underlying the works of Débora Bolsoni mostly comes from probing exhibiting strategies. The devices developed by Bolsoni, be them shelves, trolleys or panels, meanwhile serving as supports for displaying a given piece of work, wind up being the work itself. It is also strikingly surprising that the artist’s reasoning is akin to that of curators. The attention of both of them is geared towards the exhibition design and everything in-between, like the environment and furniture, which is resorted to when staging a show. Needless to say, the manner how a work is exposed is quite so important as the object per se. To Bolsoni, there is no distinction between “what” and “how” a work is delivered to the audience. Her pieces substantiate the dual aspect of being open for the onlooker’s regard to solve them, but also camouflaged, as if they behaved like devices for exhibiting other pieces. The objects that would be on a shelf end up as the framework supporting it, like a bookcase made of books. But the artist’s books are glazed tiles, in a mishmash with the wall.

Bolsoni’s works abide by an extended ripening time. They remain at the atelier, idle, being viewed and reviewed by the artist over years. Besides this, some materials are dislocated from time itself. Not by chance, the ceramic-coated books are dug in glazed tile dumps that have remainders, unaligned-pattern boards, the civil industry rejects and pieces out of the average taste of consumers.  Not only do these materials endure poetic-wise, some forms are exhibited and reappear in a new configuration after a while, both recapturing the initial sense, and opening it up. This is the case of Splash, which has already been displayed as a rosy-paper calendar and, after some time, became a grid, a sort of door, a city’s fragment mediating the public and private realms. The fencing pattern is sort of household, though it sticks to its segregation role. Grids and spears are recurring signs in the Bolsoni’s path. They have already been standalones, but now reappear on the shelves. The grids stand as a plea for safety, pointing to the seclusion of social life, but also deliver subtle patterns and drawings.

Juxtaposed in a metal mesh, the splash format, inspired by ads, is a hollow element, a platform for an offering, or a warning that is usually there. The shape is designed to draw attention in shop sales. Typically, goods and ciphers are there to fill this vacuum encompassed by a hectic zigzag line. In the universe of cartoons, they would be speech bubbles contoured by pointy triangles, conveying the idea of explosion, or a scream. Over and above, as a quite significant theme for the artist, they are like signs of consumption, an emblem of how we respond to merchandise.

The core piece of the exhibit makes an allusion to a symbolic figure, like the badges or insignia used to represent companies or institutions. Differently, here they are manhole covers, similar to those found on city roads, with a fabric that partially covers them, allowing only a vertical stripe to be visible. Nonetheless, this sort of coat of arts has no writing or translatable element on it. The association with the field of heraldry is conspicuous. There is a certain enigma and opacity to the work, and an opening of senses as well. A fragment of the city, not assigned its original role, is aimed at bestowing the gallery with an urban sign. Furthermore, this piece also shows a fabric with delicate details, edges and folds that yield triangular shapes, ultimately creating a four-square figure. In spite of the contrast between the fabric, the most intimate and private element, and the roughness of the metal cover, the work is indivisibly shaped.

Recurring figures in the Bolsoni’s path turn into patterns engraved on the ceramic boards. Boards which needed to be settled in the oven. With this, the artist’s drawings establish a liaison with the original glazed tiles patterns. For instance, Splash turns into a sort of stamp. This set of ceramic coats is displayed in a stock trolley, like in a fair of patterns, a showroom of construction materials. The elements not used in an architectural design, but which are used as interior design and basic elements of households, are the artist’s core motif; namely, the items which customers pick from a display case, like fabrics, patterns, furniture or glazed tiles.

This exhibit, the first solo show that Debora Bolsoni has in Rio de Janeiro, serves the purpose of introducing her vocabulary and repertoire of shapes. An introduction to indeterminate articles that conjoin forms of presentation and the signs of consumption existing in the civil construction industry.

CAUÊ ALVES