ExposiçõesExhibitions . 2017 . Débora Bolsoni . Pra AquietarDébora Bolsoni . To Calm

A noite é a brincadeira do dia
O dia é a brincadeira do mar
O mar é a brincadeira da vida
Pra aquietar, pra aquietar

Luiz Melodia

Num texto da artista intitulado “Pique estátua” em referência à brincadeira infantil também conhecida como “estátua”, Débora Bolsoni descreve “uma cena interrompida em que os objetos, como se fossem corpos munidos de movimento, foram surpreendidos antes de chegarem a seus devidos lugares, ou ainda, antes de chegarem ao lugar para onde se dirigiam”. Enquanto isso acontece, “a artista, à espreita, numa distração medida, deixa que os materiais lhe fujam do controle para poder então surpreendê-los, fazer um corte brusco e inesperado, como que para colher uma amostra do tempo para estudo e análise.”

Na brincadeira à qual se refere Bolsoni, o movimento é tão essencial quanto a quietude. O ganhador é aquele que evita ser visto em movimento, mas que, no entanto, se movimenta (“eppur si muove” que diria Galileu num sussurro diante do tribunal da inquisição que lhe julgava). Quem antes chega é, paradoxalmente, quem mais fica quieto… quem mais se mexe é quem se mexe menos? Estas ideias podem resultar contraditórias, mas elas são recorrentes na metafísica desde antes de Aristoteles, através do qual nos tem chegado a ideia de “motor imóvel”.

O motor imóvel é, em essência, o ato puro: “o que movimenta sem ser movimentado”. Trata-se de uma espécie de deus amoral e sem nenhuma caraterística antropomorfa. O motor imóvel é a primeira causa, mas não é o criador das coisas, nem mexe nelas com um senso de causalidade dirigida. Este deus aristotélico atrai as coisas colocando-as em movimento do mesmo jeito em que o amado mobiliza ao amante; por meio de uma atração ou força. Não se trata, portanto, de uma operação de natureza mecânica, apesar do que a palavra “motor” possa evocar hoje em dia. No motor imóvel não tem potência, só ato; mas nele o ato não implica movimento. Ao contrario: o motor imóvel só pode ser a causa primeira de tudo porque não se movimenta. 

São as obras de Bolsoni, aquelas que interrompemos com nossa entrada em cena? Para onde elas vão? O que as movimenta? E se elas não fossem para nenhum lugar? As obras insinuam trajetórias em potência, parecem aquietar-se, deter-se, congelar-se quando olhamos para elas. Mas não será o contrário?  E se elas não contivessem a potência de uma trajetória? E se fossem ato puro? Eis o motivo pelo qual estas obras sempre ganham: porque elas não estão brincando do jogo que aparentam brincar. Elas já chegaram ao seu destino porque não iam para nenhum lugar. Como diz Bolsoni nesse mesmo texto que comecei citando “o corte na linha do tempo é apenas uma tática de busca de permanência. Uma tentativa de entrever, na suspensão dos atos, alguma essência inesgotável.”

Como nas paradinhas da música de Luiz Melodia que dá título à exposição, estes cortes no tempo são, na verdade, a chave de qualquer movimento, sua essência inesgotável. A força que gera movimento por força de um fluxo magnético, uma atração. Como a Ilha de Paquetá, imóvel no tempo, atraindo Sônia Braga até ela, dirigindo seus passos. Ou como a famosa “zona proibida” do filme de Tarkovsky atraindo os “stalkers” até sua, sempre indecifrável, área de influência. Não são referências da artista à toa. Ondas, cubos ou cobras deslizantes, caminhos, palavras, rodas, carrinhos… já percebemos que as obras de Bolsoni refletem sobre a natureza do movimento, mas talvez o que se mexe não são as obras e sim a gente, firme e vagarosamente orbitando ao redor delas.

CLAUDIA RODRIGUEZ PONGA

Night is the plaything of the day.
Night is the plaything of the day.
The day is the plaything of the sea
The sea is the plaything of life
To calm, to calm

Luiz Melodia

In a text by the artist entitled “Statue Game,” which refers to the child’s game known as “Statues,” Bolsoni describes “an interrupted scene in which objects, as if they were moving bodies, were surprised before arriving at their proper places, or before they reached the place they were headed.” While this is happening, “the artist, peeking in deliberate amusement, lets go of controlling the materials so she can surprise them and make an abrupt and unexpected cut, as if collecting a sample of the time for study and analysis.”

In the game which Bolsoni refers to, movement is as essential as stillness. The winner is the one who avoids being seen moving, but who nevertheless moves (“eppur si muove” as Galileo said in a whisper before the tribunal of the inquisition that judged him). Whoever comes before, paradoxically, is the one who stays still the most…who moves the most is the one who moves less? These ideas may be contradictory, but they have been recurrent in metaphysics since before Aristotle, through whom we have gained the idea of ​​the “unmoved mover.”

The unmoved mover is in essence the pure act: “that which moves without being moved.” It is a kind of amoral god with no anthropomorphic characteristics. The unmoved mover is the primal cause, but it is not the creator of things, nor does it meddle with them with a sense of directed causality. This Aristotelian god attracts things by putting them in motion in the same way in which the loved one puts his lover in motion—through an attraction or force. It is not, therefore, a mechanical operation, despite what the word “mover” implies today. In the unmoved mover there is no power, only an act; but the act does not imply movement. On the contrary: the unmoved mover can be the first cause of everything only because it does not move.

Are Bolsoni’s works the ones we interrupt when we enter the scene? Where do they go? What moves them? What if they were not going anywhere? The works suggest trajectories in potency that seem to be still, to hold themselves back, to freeze when we look at them. But isn’t it the other way around? And what if they didn’t have the power of a trajectory? What if they were a pure act? That’s why these works always win: because they’re not playing the game they seem to be playing. They have already reached their destination because they weren’t going anywhere. As Bolsoni says in the same text that I began by quoting “the cut in the timeline is only a tactic for seeking permanence. An attempt to glimpse, in the suspension of the acts, some inexhaustible essence.”

Like the breaks in Luiz Melodia’s song, which gave this exhibition its name, these cuts in time are, in fact, the key to any movement, its inexhaustible essence. The force that generates movement through the power of a magnetic flux, an attraction. Like the Island of Paquetá, motionless in time, drawing Sonia Braga to it, guiding her steps. Or like the famous “forbidden zone” of Tarkovsky’s film attracting the stalkers to his always indecipherable area of ​​influence. They are not random references of the artist. Waves, cubes, or slithering snakes, paths, words, wheels, carts… we have already noticed that Bolsoni’s works reflect on the nature of movement, but perhaps what moves is not the works but we, firmly and slowly orbiting around them.

CLAUDIA RODRIGUEZ PONGA