ExposiçõesExhibitions . 2014 . APARIÇÃOAPPARITION

Michelangelo costumava dizer que via em cada bloco de mármore uma estátua. “Vejo-a tão claramente como se estivesse na minha frente, moldada e perfeita na pose e no efeito. Tenho apenas de desbastar as paredes brutas que aprisionam a adorável aparição para revelá-la a outros olhos como os meus já a vêem”. Mais do que trabalhar a pedra com precisão, o trabalho de Michelangelo, como escultor, estava em um momento anterior, quando ele enxergava uma forma em estado de potência, “adormecida”, na pedra bruta. Esculpir era a maneira de tornar essa forma que só ele via, visível a todos. Ao longo dos últimos cinco séculos, a ideia de escultura se apresenta cada vez mais distante de uma questão técnica/formal para se ligar cada vez mais à aparição, a essa possibilidade de “tornar visível”.

A produção recente dos artistas reunidos nesta exposição revela algumas possibilidades para se (re)pensar a definição e a prática da escultura na produção de arte contemporânea. Aqui, já não é possível pensar em escultura como antes. Alguns trabalhos presentes em Aparição lidam, por exemplo, com a questão tridimensional (elemento básico para a definição da ideia clássica de escultura), abrindo mão dos materiais clássicos desse meio (como a pedra, a madeira, mármore, metal ou o barro), dos procedimentos de trabalho com eles (entalhar, fundir, modelar, cinzelar) e de sua relação final distanciada com o mundo. Outros abrem mão da tridimensionalidade e da estrutura estática, pensando a escultura a partir de fotografia, vídeo, instalação, ação e intervenção.

Apesar de deixar de lado a representação em estátuas, a prática escultórica continua interessada no corpo, que pode ser ainda o corpo humano, mas também o corpo dos materiais utilizados. Em Arquiteturas Pessoais de Jorge Soledar e Gelo Baiano de Daniel de Paula, o corpo funciona como uma possível unidade variável de medida do espaço. Este deixa de ter uma dimensão fixa para, a partir da ação de corpos de pessoas ou de um conjunto de prismas de sinalização em concreto retirados das ruas, adaptados com rodas de silicone e parafusos, se apresentar como um espaço de dimensões variáveis, que se reconfigura a todo momento de acordo com articulações que se alternam. Já em Água Forte de Wagner Malta Tavares, o objeto que abre mão da base para se posicionar diretamente no chão interfere em nossa percepção do espaço onde estamos quando nos faz olhar para ele, o espaço, através da água contida nas formas de vidro.

As ações e práticas ligadas ao fazer tradicional da escultura, além de referências históricas do próprio meio, também são trazidos à tona em alguns trabalhos. No vídeo Aparição, Adriano Amaral leva pouco mais de nove minutos retirando a camada branca da superfície da pedra, revelando ao final sua forma e material originais. Em Brinde ao Carbono e Cubos de Débora Bolsoni, trabalhos de Brancusi e Man Ray aparecem como heranças históricas e imagéticas, enquanto em Amortecimento de Daniel de Paula, é um vídeo realizado na Rue Gentil-Bernard, em Fontenay-aux-Roses, subúrbio parisiense, no mesmo local onde viveu Yves Klein e onde foi realizado Salto no Vazio (1960). No trabalho do artista francês, o salto que o artista dá pela janela em direção à rua é congelado pelo instante fotográfico. No vídeo de Daniel de Paula, o bloco de concreto se espatifa no chão todas as vezes que “se lança” pela janela. Medo Comum de Frederico Filippi, Chumbador de André Griffo e Pedestal de Jorge Soledar, parecem colocar em questão termos e procedimentos caros à escultura clássica como a ideia de fixação e a presença da base. Já Teoria e Prática também de Frederico Filippi e Empilhamento de Bruno Baptistelli, falam do momento de passagem de um projeto, pensado no plano bidimensional, para o mundo tridimensional.

É a partir do encontro com o mundo que outra parte dessa produção vai se estruturar. Em Falha de Comunicação de Raquel Versieux, e Esquadria, Maço 2 e Maço 3 de João Loureiro, somos (re)apresentados a objetos do dia-a-dia, reconstruídos a partir de materiais simples como latas, basbantes, alumínio e algodão ou com novos formatos, mas usando seu próprio material, como papel de cigarro. O mundo também está gravado na massa de concreto de Laje # 54 (todos os dias) de Matheus Rocha Pitta. E enquanto em Porninho, Ana Paula Oliveira metaliza ninhos de pássaros e os desloca para a galeria, suspensos por placas de vidro, Flora Leite recria um cristal em Fascinação com cerveja, sulfato de magnésio e cimento, a uma temperatura ambiente de no máximo 20ºC. Assim, a denifição de escultura como “A arte e técnica de plasmar a matéria entalhando a madeira, modelando o barro, cinzelando a pedra ou o mármore, fundindo o metal, etc, a fim de representar em relevo ou em três dimensões, estátuas, figuras, formas abstratas, etc.” parece dizer muito mais sobre o que não é mais escultura do que sobre o que é.

FERNANDA LOPES

Michelangelo used to say he saw a statue in every block of marble. “In every block of marble I see a statue as plain as though it stood before me, shaped and perfect in attitude and action. I have only to hew away the rough walls that imprison the lovely apparition to reveal it to other eyes as mine see it.” But more than carving the stone with precision, Michelangelo’s work as a sculptor was prior to that; it came about when he saw a shape in a state of power, “asleep,” in the rough stone. Sculpting was a way to make this shape, which only he could see, visible to everyone. Over the past five centuries, the idea of sculpture is moving increasingly farther from being a technical/formal question to become more linked to apparition, this possibility of “making something visible.”

The recent production of the artists assembled in this exhibition reveals some possibilities to (re)consider the definition and practice of sculpture in contemporary art production. Here it is not possible to think of sculpture as it was before. For example, some of the works present in Apparition deal with the three-dimensional issue (the basic element for defining the classical idea of sculpture), renouncing this medium’s classic materials (such as stone, wood, marble, metal or clay), the procedures for working with them (carving, fusing, shaping, chipping) and the final relationship with the world. Others waive the use of three-dimensionality and static structure, thinking about sculpture based on photography, video, installation, action and intervention.

Despite setting aside representation in statues, sculptural practice remains interested in the body, which may still be the human body, but also the body of the materials used. In Arquiteturas Pessoais (Personal Architectures) by Jorge Soledar and Gelo Baiano (Bahian Ice) by Daniel de Paula, the body functions as a possible variable unit of the space measure. This no longer has a fixed dimension to be able, based on the action of bodies of persons or a set of signaling prisms set in concrete removed from the streets, fitted with silicone wheels and screws, to be presented as a space of variable sizes, which are being reconfigured all the time in accordance with joints that alternate between themselves. For its part, in Água Forte (Strong Water) by Wagner Malta Tavares, the object that needs no base to stand directly on the floor interferes with our perception of space, of where we are when it makes us look at it, the space, through water contained in glass shapes.

Actions and practices related to the traditional making of a sculpture, in addition to historical references of the medium itself, are also brought to the fore in some studies. In the video Aparição (Apparition), Adriano Amaral takes just over nine minutes to remove the white layer of the surface of the stone, at the end revealing its original shape and material. In Brinde ao Carbono (A Toast to Carbon) and Cubos (Cubes) by Débora Bolsoni, works by Brancusi and Man Ray appear as historical and image legacies, while Amortecimento (Cushioning) by Daniel de Paula, is a video shot at Rue Gentil-Bernard, Fontenay-aux-Roses, a Paris suburb in the same place where Yves Klein lived and where Leap into the Void was made (1960). In the work of the French artist, the artist’s jump out the window toward the street is frozen in a photographic moment. In the video by Daniel de Paula, the concrete block shatters on the ground every time it “throws itself” out the window. Medo Comum (Common Fear) by Frederico Filippi, Chumbador (Base Bolt Tensioner) by Andre Griffo and Pedestal by Jorge Soledar seem to put into question the terms and expensive procedures of classical sculpture, like the idea of fixation to and the presence of a base. For their part, Teoria e Prática (Theory and Practice), also by Frederico Filippi, and Empilhamento (Stacking) by Bruno Baptistelli speak of the passing moment of a project, thought in a two-dimensional plane for a three-dimensional world.

The other part of this production will be structured based on the encounter with the world. In Falha de Comunicação (Miscommunication) by Rachel Versieux, and Esquadria, Maço 2 e Maço 3  (Frame, Packet 2 and Packet 3) by João Loureiro, we are (re)presented to day-to-day objects, reconstructed from simple materials like cans, string, aluminum and cotton or with new formats, but using their own materials, such as cigarette paper. The world also is engraved into the mass of concrete in Laje # 54 (todos os dias) (Slab # 54 (every day)) by Matheus Rocha Pitta. And while in Porninho (Little Porn), Ana Paula Oliveira metallizes bird nests and moves them to the gallery, suspended by glass plates, Flora Leite recreates a crystal in Fascinação (Fascination) with beer, magnesium sulphate and cement, at a room temperature of 20oC. Thus, the definition of sculpture as “The art and technique of molding materials through the carving of wood, modeling clay, hewing stone or marble, melting metal, etc. in order to represent in relief or in three dimensions statues, figures, abstract shapes, etc.,” seems to say more about what no longer is sculpture than about what is.

FERNANDA LOPES