ExposiçõesExhibitions . 2012 . Antonio Dias . PolaroidsAntonio Dias . Polaroids

Nascido em Campina Grande, na Paraíba, em 1944, chegou ao Rio de Janeiro com quatorze anos de idade. Autodidata, não seguiu nenhum ensino tradicional de arte, mas frequentou o Ateliê Livre de Gravura da ENBA, onde foi orientado por Oswald Goeldi e Adir Botelho. Seu envolvimento não deriva de nenhum compromisso acadêmico, o que lhe trouxe uma enorme autonomia e disponibilidade para o seu fazer artístico. Essa interação do artista com o desprendimento envolveu sua produção e experimentações para realizações mais radicais, não aderindo de forma decisiva aos diferenciados movimentos artísticos, mantendo o núcleo poético do seu trabalho livre e disponível para buscar os seus próprios desdobramentos.

A singularidade de sua trajetória movimentada e inquieta é surpreendente e tem sido um processo permanente de pesquisa. Sua obra, vasta e complexa, se desenvolve em um território de significações ambíguas, muitas vezes irônicas, repletas de inúmeras questões que permeiam os conceitos fundamentais do território plástico. O processo da arte é estar sempre questionando; é um ato permanente de conhecimento, que busca um território autônomo de pensamento. Não se ouve suficientemente o que os pintores dizem, já alertava o filósofo francês Gilles Deleuze. Uma produção artística propõe uma solução e, ao mesmo tempo, enuncia um problema. Ao longo de décadas, Antonio Dias trabalha com diversas linguagens artísticas, diferentes materiais e universos heterogêneos, em um ritmo flexível e intenso de expansão e experimentações: pintura, gravura, obras sobre papel, discos, desenhos, objetos, fotografia, vídeos, cinema e instalações sonoras.

Residiu em diversas cidades e estabeleceu diferentes ateliês. Alguns permanentes, como os do Rio de Janeiro, Milão, Paris, Colônia e outros transitórios, como os do Nepal, Recife, Nova York e Berlim. Nesses deslocamentos constantes, estabeleceu pontos de contato com a produção local e a internacional, e trouxe sempre à tona uma constelação de informações e referências, dentro do qual sua obra se movimenta, sempre impulsionada pela necessidade irrequieta de explorar novos caminhos na sua produção.

A fotografia passou a integrar a sua obra como um elemento substantivo dela; adquiriu uma potencialidade, um vocabulário e um universo próprio dentro do seu trabalho. Nessas obras, percebemos a reunião de dois recursos estéticos independentes: a captura do real através de uma câmera polaroid e a transferência para a tela, onde são estabelecidas equivalências poéticas, através desse quase olhar da câmera na passagem para a tela.

Nessa fronteira entre a pintura e a fotografia, a série Polaroids permite uma anotação rápida, um registro transitório e requer uma outra frequência, que se prolonga ao romper as estruturas, que a separam da pintura gestual, criando uma mistura de linguagens, que alimenta a pulsão do olhar. Charles Baudelaire declarou que na fotografia, encontramos a apreensão do eterno no efêmero.

Na obra de Antonio Dias, se a cor aparece inicialmente como um fenômeno puramente ótico, ela torna-se densa e corpórea nas superfícies do papel fotográfico para, posteriormente, materializar- se nas sólidas superfícies das telas. São momentos diferenciados, que ganham respiração, como se o instante se debatesse, adquirisse uma espécie de rumor da natureza, que ganha estabilidade e adquire forma ao se concretizar nas ampliações fotográficas e posteriormente nas telas. Francis Bacon mencionava que para ele, as fotografias não são somente ponto de referências, muitas vezes elas são detonadoras de ideias.

A captura é o primeiro foco de atração: parece guardar uma imediaticidade da experiência, reter o singular. Explora a ideia do efêmero como passageiro, transitório. Os elementos de interferência e dissolução parecem ser uma constituinte do seu trabalho, mas permanece um aspecto ambíguo, presidido por dois movimentos: saber se desmanchar/saber se impregnar. Na iminência de uma dissolução, ganha uma presença permanente. A obra sai da câmera para uma imersão cromática e se consolida em um outro meio de expressão, originando trabalhos independentes e rematerializados, um novo território geográfico.

O trabalho de Antonio Dias sempre se constitui como um vir a ser, como uma experiência de natureza fluida, móvel, indefinida nas suas experimentações. A cor funciona como um olho exploratório, registrando a intensidade e construindo a matéria. Neste processo operacional de captura do real, o trabalho adquire interioridade, encerra, enfim, uma forma plástica de pensamento, uma consciência ampliada de sua dimensão artística. Antonio revela uma relação sensual com a matéria, dando aos seus trabalhos uma espessura significativa e um contorno impreciso e ambíguo. São verdades, que estão sempre presentes e que são os elementos constitutivos da sua poética: o lugar da arte e do artista, as associações entre texto e imagem, o uso da ironia como linguagem, as formas geométricas, as discussões sobre política, poder, sexo e sedução. Tenciona o jogo do desejo, torna-o um fato estético dentro de um terreno metafórico, em sua misteriosa aparência, como na sua instalação Todas as Cores do Homem, realizada em 1996, composta de frascos de vidro soprados em forma de pênis, que contém água mineral, vinho tinto, malaquita, grafite, gesso, que remetiam ao corpo, simbolizados por elementos como a pele e os órgãos sexuais.

”Todo trabalho deve ser inteligente, mas é importante, ao mesmo tempo, colapsar o entendimento. Todo trabalho bom, realmente inventivo, vai contra a lógica e a razão” Antonio Dias – O Globo, 10 setembro de 1985.

VANDA KLABIN

Born in Campina Grande, Paraiba in 1944, Antonio Dias came to Rio de Janeiro when he was fourteen years old. Self-taught, he did not follow any traditional art instruction, but attended the Free Engraving Workshop at the National Fine Arts School (ENBA), where he was taught by Oswald Goeldi and Adir Botelho. His involvement does not derive from any academic commitment, which allowed him great autonomy and availability for his work as an artist. This independent interaction of the artist attracted his production and experimentations toward more radical achievements, without adhering decisively to various artistic movements, and keeping the poetic core of his work free and available to pursue his own evolution.

The uniqueness of his active, restless career is surprising and has been an ongoing process of research. His work, vast and complex, is developed in a terrain of ambiguous and often ironic meanings, replete with many issues that permeate the fundamental concepts of fine arts. The process of art is always challenging; it is an ongoing act of knowledge that seeks an autonomous territory of thought. What painters say is not sufficiently heard, as the French philosopher Gilles Deleuze has already warned us. An artistic production art proposes a solution, and at the same time expresses a problem. Over the decades, Antonio Dias has worked with various artistic languages, different materials and heterogeneous worlds, in a flexible and intense rhythm of expansion and experimentation: painting, engraving, works on paper, records, drawings, objects, photography, videos, film, and sound installations.

He has lived in several cities and has set up numerous workshops—some permanent, such as the ones in Rio de Janeiro, Milan, Paris, and Cologne, and others transient, such as the ones in Nepal, Recife, New York, and Berlin. During these constant changes, he established points of contact with local and international production and always revealed a constellation of information and references, within which his work moves, always driven by the restless need to explore new avenues in its production.

Photography became part of his work as a substantive element; it took on a potentiality, a vocabulary, and its own world within his work. In these works, we see the meeting of two independent aesthetic resources: the capturing of reality with a Polaroid camera and its transfer to canvas, where poetic equivalences are established through this semi-gaze of the camera as it moves onto the canvas.

In this frontier between painting and photography, the Polaroids series permits a quick observation, a transitional record, and requires a different frequency that is prolonged in breaking down the structures that separate it from gestural painting, creating a mixture of languages which feeds the instinct of the vision. Charles Baudelaire said that in a photograph, we find the apprehension of the eternal in the ephemeral.

In Antonio Dias’ work, if color appears initially as a purely optical phenomenon, it becomes dense and corporeal on the surfaces of the photographic paper, later to materialize onto the solid surfaces of the canvases. These are diferentiated moments that gain breath, as if the instant were attempting to free itself, acquire a kind of murmur of nature, which gains stability and finds a way to materialize itself in the photographic enlargements and afterwards on the canvases. Francis Bacon mentioned that to him, photographs are not only points of reference, they are often triggers for ideas.

Capturing is the first focus of attraction: it seems to hold an immediacy of experience, to retain the unique. It explores the idea of the ephemeral as a transient passenger. The elements of interference and dissolution seem to be a constituent of his work, but remain an ambiguous aspect of it, presided over by two movements: knowing how to undo/knowing how to be impregnated. On the verge of dissolution, it gains a permanent presence. The work leaves the camera for a chromatic immersion and is consolidated into another means of expression, originating independent, rematerialized works, a new geographical territory.

Antonia Dias’ work always consists of a becoming, as an experience of a fluid nature, mobile, indefinite in its experimentations. Color functions as an exploratory eye, recording intensity and building the material. In this operational process of capturing the real, the work acquires interiority, finally encompassing a plastic thought form, an increased awareness of artistic dimension. Antonio reveals a sensual relationship with matter, giving his work a significant density and an a imprecise and ambiguous contour. These are truths that are always present and are the constituent elements of his poetics: the place of the art and the artist, the associations between text and image, the use of irony as language, geometric shapes, discussions about politics, power, sex and seduction. Its purpose is the game of desire, and turns it into an aesthetic fact within a metaphorical terrain, in its mysterious appearance, such as in his installation All the Colors of Man, completed in 1996, composed of glass bottles blown into the shape of a penis, containing mineral water, red wine, malachite, graphite, and gypsum, which refer to the body, symbolized by elements such as the skin and sexual organs.

In his words: All work must be intelligent, but it is important at the same time to break down understanding. Every good, really inventive work, goes against logic and reason.

Antonio Dias, O Globo, September 10, 1985.

VANDA KLABIN