ExposiçõesExhibitions . 2011 . Anna Paola Protásio . O tempo saqueadoAnna Paola Protásio . The Looted Time

“O tempo é o inimigo vigilante e funesto, o obscuro inimigo que nos corrói o coração”, dizia Baudelaire em Spleen et Idéal. Sobre o enigma do tempo – sua voracidade que a tudo metamorfoseia e consome – debruçaram-se poetas e místicos, filósofos e cientistas. O tempo ganharia desenhos e medidas, causalidades e acasos, movimentos contínuos ou intempestivos, direções únicas ou múltiplas, suspensões em eternidades ou devires imprevisíveis. Estendido ou comprimido, seria entre nós, promessa e vertigem.

O tempo, com sua fluidez e fugacidade, também seria excluído do universo das artes visuais por uma tradição que defendia a especificidade de cada categoria artística, seu reconhecimento nos limites do que lhe era exclusivo. Se poesia e música eram artes do tempo, as artes visuais seriam consideradas artes do espaço. O tempo seria contraído em um instante que suspenderia seu escoar: no instante fecundo de Lessing (o pintor deveria escolher o momento da ação, a ser representada na pintura, capaz de abarcar implicitamente o passado e o futuro); no imediato de Greenberg (a suspensão do tempo experimentada no encontro extasiado e transcendente com a obra de arte, com o plano bidimensional da pintura); no primeiro jato, o momento da inspiração artística dos românticos; na percepção instantânea dos impressionistas; na ficção da fotografia em congelar o instante, em sua captura por um olho mecânico e universal. É a ameaça e o júbilo de viver na inelutabilidade do agora que estão ali segredados.

É sobre o desejo de fixar a inexorável fugacidade do tempo, conjurar efemeridades e consumações, que se trata esta exposição de Anna Paola Protasio. Por isso a artista busca um “Pacto com infinito”, um pacto com a negação do tempo e com a desmesura do espaço: parte de um bloco de concreto levita, imobilizado, como se desconhecesse a gravidade e a finitude da matéria. Ou tenta roubar do mar, seu mistério e suas tsunamis imprevisíveis, um pedaço de sua imensidão ou o hipnótico movimento de suas marés – “O mar quando quebra” é feito em aço corten, o aço com o qual os barcos (essa reversa da imaginação como disse Foucault) são construídos. Ou arrisca-se ainda mais, como paralisar os pequenos e os grandes movimentos: da tinta que escoa da pá (interrompendo a iminente queda em um ainda não, em um “Quase”) ao ciclo da Terra em torno do sol (para quem sabe, em alguma parte dessas cartografias sonhadas, “Noite e dia” se encontrassem).

Suas peças em madeira azul ou em aço e alumínio ganham também nomes de movimento. Descontinuidades e sutis arritmias são introduzidas na instantaneidade dos planos: “Hífen”, “Intermitência”, “Invasão”, “Desvio concreto”. Se “Hífen” separa e une os planos do alto e do baixo, chão e teto, sobre e sob; “Desvio concreto” é composto por dois planos de aço corten e aluminio separados e torcidos por um livro entre eles, a“Experiência Neoconcreta” de Ferreira Gullar (afinal, um dos “desvios” do neoconcretismo foi a introdução, na obra, do tempo como duração e experiência imanente).

Querer saquear o tempo supõe desejar seu enigma, tanto deter seu curso como compreender e roubar seu segredo e poder. Para, quem sabe, ser capaz de parar a Roda das Moiras, o tear dessas três lúgubres irmãs que fabricavam, teciam e cortavam o fio da vida, determinando o destino de deuses e homens.

MARISA FLÓRIDO

“O tempo é o inimigo vigilante e funesto, o obscuro inimigo que nos corrói o coração”, dizia Baudelaire em Spleen et Idéal. Sobre o enigma do tempo – sua voracidade que a tudo metamorfoseia e consome – debruçaram-se poetas e místicos, filósofos e cientistas. O tempo ganharia desenhos e medidas, causalidades e acasos, movimentos contínuos ou intempestivos, direções únicas ou múltiplas, suspensões em eternidades ou devires imprevisíveis. Estendido ou comprimido, seria entre nós, promessa e vertigem.

O tempo, com sua fluidez e fugacidade, também seria excluído do universo das artes visuais por uma tradição que defendia a especificidade de cada categoria artística, seu reconhecimento nos limites do que lhe era exclusivo. Se poesia e música eram artes do tempo, as artes visuais seriam consideradas artes do espaço. O tempo seria contraído em um instante que suspenderia seu escoar: no instante fecundo de Lessing (o pintor deveria escolher o momento da ação, a ser representada na pintura, capaz de abarcar implicitamente o passado e o futuro); no imediato de Greenberg (a suspensão do tempo experimentada no encontro extasiado e transcendente com a obra de arte, com o plano bidimensional da pintura); no primeiro jato, o momento da inspiração artística dos românticos; na percepção instantânea dos impressionistas; na ficção da fotografia em congelar o instante, em sua captura por um olho mecânico e universal. É a ameaça e o júbilo de viver na inelutabilidade do agora que estão ali segredados.

É sobre o desejo de fixar a inexorável fugacidade do tempo, conjurar efemeridades e consumações, que se trata esta exposição de Anna Paola Protasio. Por isso a artista busca um “Pacto com infinito”, um pacto com a negação do tempo e com a desmesura do espaço: parte de um bloco de concreto levita, imobilizado, como se desconhecesse a gravidade e a finitude da matéria. Ou tenta roubar do mar, seu mistério e suas tsunamis imprevisíveis, um pedaço de sua imensidão ou o hipnótico movimento de suas marés – “O mar quando quebra” é feito em aço corten, o aço com o qual os barcos (essa reversa da imaginação como disse Foucault) são construídos. Ou arrisca-se ainda mais, como paralisar os pequenos e os grandes movimentos: da tinta que escoa da pá (interrompendo a iminente queda em um ainda não, em um “Quase”) ao ciclo da Terra em torno do sol (para quem sabe, em alguma parte dessas cartografias sonhadas, “Noite e dia” se encontrassem).

Suas peças em madeira azul ou em aço e alumínio ganham também nomes de movimento. Descontinuidades e sutis arritmias são introduzidas na instantaneidade dos planos: “Hífen”, “Intermitência”, “Invasão”, “Desvio concreto”. Se “Hífen” separa e une os planos do alto e do baixo, chão e teto, sobre e sob; “Desvio concreto” é composto por dois planos de aço corten e aluminio separados e torcidos por um livro entre eles, a“Experiência Neoconcreta” de Ferreira Gullar (afinal, um dos “desvios” do neoconcretismo foi a introdução, na obra, do tempo como duração e experiência imanente).

Querer saquear o tempo supõe desejar seu enigma, tanto deter seu curso como compreender e roubar seu segredo e poder. Para, quem sabe, ser capaz de parar a Roda das Moiras, o tear dessas três lúgubres irmãs que fabricavam, teciam e cortavam o fio da vida, determinando o destino de deuses e homens.

MARISA FLÓRIDO