ExposiçõesExhibitions . 2013 . ANDRÉ RENAUD . CÓPIA CARBONOAndré Renaud . Carbon Copy

PROJETO Q.I.
O projeto Q.I. (Quem Indica) tem como objetivo convidar um artista para indicar um jovem artista para realizar uma exposição com todo o apoio, experiência e direcionamento da galeria. Nesta 1º edição, a galeria convida a artista Joana Cesar para indicar e escrever o texto artístico da exposição. 

Joana Cesar indica o artista André Renaud, carioca de 36 anos, que apresenta a mostra Cópia Carbono. André apresenta dois dípticos, Natureza Morta e Coke Painting, e o site-specific Natureza Morta e sua Reprodutibilidade. Composto por duas pilhas de materiais encontrados e recolhidos pelo artista especialmente para a exposição, cada pilha é reproduzida artesanalmente e exatamente igual a outra. Esta obra faz uma crítica social, dentro das possibilidades da arte, à reprodutibilidade de materiais descartados pela sociedade e mostra ao público a arte em objetos sem importância no nosso cotidiano.

Será exposto também um vídeo realizado a partir do material do documentário Barrão, dirigido por ele e por Christian Fishgold, amigo do artista, diretor de cinema e escritor. Trata-se de uma pesquisa artística em que procuram conjugar as diferente experiências e linguagens. Andre Renaud, que participou do Programa Aprofundamento EAV/Parque Lage 2012; foi premiado no Salão Novíssimos 2006 do IBEU; e é Bacharel em Pintura pela EBA/UFRJ.

CÓPIA CARBONO
O concreto não se dobra. O mar não seca. A trajetória do corpo do homem que pulou não pode ser interrompida. A gravidade nos pressiona contra o chão. Quando dobramos a rua na esquina de casa, encontramos a nossa casa; e se dentes finos de um cão raivoso enterram-se em nossa carne, sangra, vermelho. Olho o espelho e me reconheço, e se por descuido queimo o dedo na panela que acabou de sair do fogo, a dor da bolha em minha pele é a garantia de que posso seguir em frente, e bem mais tarde, em minha cama de sempre, fechar os olhos e dormir – o mundo é uma poltrona macia, e tudo está em seu lugar.

Esperamos que máquinas sigam cuspindo cópias idênticas das embalagens dos produtos que consumimos, e torneiras assépticas derramem o leite vitaminado dentro dessas embalagens, e que possamos reconhecê-las, desejá-las, para com as mãos alcançá-las na prateleira do hipermercado. Tudo está em seu lugar.

Diferente das máquinas, que não podem fazer diferente do que foram programadas, nós, bichos, movemo-nos condenados à impossível repetição do gesto. No tempo, maré, só nos resta boiar como pequenas folhas secas.

Movido por uma obstinação desmesurada, André Renaud quer pintar o mesmo quadro, como se pudesse ir contra sua própria humanidade, e brincasse de ser máquina. Tornando-se maquinal, constrói o par improvável do que parece ter sido feito submetido às duras leis que regem o acaso, e arranha, como se fosse um gato, o tecido embolorado dessa velha poltrona onde está sentado, sonolento e entediado, o nosso olhar, fazendo-nos descer goela abaixo um espinhoso inesperado gole gelado, vindo direto de uma bebida quente, que juramos ter sido posta fumegando dentro da xícara, e então, convida-nos a mudar de lugar.

JOANA CESAR

PROJETO Q.I.

The intent of the Q.I. (“Quem Indica,” or “Who Recommends”) project is to invite an artist to recommend a young artist to hold an exhibition, with all the support, experience and guidance of the gallery. In this 1st edition, the gallery invites the artist Joana Cesar for the recommendation and to write artistic text for the exhibition.

Joana Cesar recommends artist André Renaud, a thirty-six year old carioca, to present his show Carbon Copy. André has two diptychs, Still Life and Coke Painting, and the site-specific Still Life and its reproducibility. Composed of two piles of materials found and collected by the artist especially for the exhibition, each pile is reproduced by hand and exactly the other. This work is a social critique within the possibilities of art, the reproducibility of materials discarded by society, and shows art objects that have no importance in our daily lives to the public.

A video will also be shown, created from material from the Barrão documentary, directed by Renaud and Christian Fishgold, film director and writer and a friend of the artist. It is an artistic inquiry in which they seek to combine different experiences and languages. Andre Renaud attended the Aprofundamento EAV/Parque Lage 2012 program; was awarded at the Salão Novíssimos 2006 do IBEU; and has a BA in painting from EBA/UFRJ.

CÓPIA CARBONO

Concrete does not bend. The sea does not dry up. The trajectory of the body of a man who jumps can not be stopped. Gravity presses us to the ground. When we turn the corner of the street where our house is, we find our house; and if the sharp teeth of a rabid dog bury themselves in our flesh, we bleed red blood. I look in the mirror and recognize myself, and if I inadvertently burn my finger on the pan that just came off the burner, the pain from the blister on my skin is the guarantee that I can move on, and much later in my same bed as always, I close my eyes and sleep—the world is a soft easy chair, and everything is in its place.

We hope that machines will keep spitting out identical copies of packaging for the products we consume, and aseptic faucets will pour vitamized milk into these packages so we can recognize them, desire them, so our hands to reach them on the supermarket shelf. Everything is in its place.

Unlike machines, which can do nothing other than what they were programmed for, we animals move along, condemned to the impossible repetition of the gesture. In time, tide, all we can do is float like little dry leaves.

Driven by an immense obstinacy, André Renaud wants to paint the same picture, as if he could go against his own humanity, and play at being a machine. Becoming machine-like, he builds an unlikely pair of something that appears to have been subjected to the harsh laws governing randomness. Like a cat, he scratches the musty fabric of the old easy chair he’s sitting in, sleepy and bored, our eyes, making us pour an unexpectedly prickly cold drink down our throats, coming straight from a hot drink that we swear that was poured steaming into the cup, and then he invites us to change seats.

JOANA CESAR