ExposiçõesExhibitions . 2013 . ANDRÉ GRIFFO . REUSO E RETARDOAndré Griffo . Reuse and Delay

André Griffo cria a sua mitologia individual ao se nutrir de sua própria experiência. Utiliza um vocabulário muito expressivo no seu procedimento artístico através da adoção de objetos do cotidiano, construído em consonância com materiais industriais. Seu trabalho explora temas que envolvem uma parceria complexa entre o homem e a natureza, objetos transfigurados que se referem a experimentos pessoais do artista, impregnados de uma carga psicológica ao incorporar a subjetividade no seu plano visual e utilizar uma fusão de diferentes elementos como animais, grades, lanças e armas medievais, colunas de ordem gregas, capacetes, entre outros.

O artista cria núcleos significativos que são incorporados ao seu trabalho, ao manipular imagens preexistentes na busca de uma interlocução incessante de diferentes elementos, encontrados nas lojas de materiais de construção e de ferro-velho. Suas obras remetem aos vestígios do universo urbano e rural, onde o artista acrescenta valores estéticos aos fragmentos e aos objetos, elementos essenciais para a sua composição de trabalho. André Griffo cria um repertório plástico que tem como componente uma reificação e alteraração da natureza dos objetos. A partir da moldagem de alguns objetos, preservada no sal grosso e devidamente perfurada, realiza a edição de fragmentos de um corpo animal, que toma uma forma predominante, como uma matriz que o artista reproduz na forma original, quase como um carimbo em série e reativada em outros territórios.

Os fragmentos do corpo animal, na sua inércia, têm sua interioridade dilacerada como uma necessária ferramenta de trabalho, tais como a pata do porco e os chifres de boi, imagens recorrentes que passam por um processo de modelagem e tornam-se elementos constituintes da sua obra, sejam congeladas, engessadas, picotadas e depois chumbadas.

Esses objetos trazem em si uma espécie de tensão muscular para toda a superfície da tela, alteram a forma primordial da sua natureza, e o artista logo transforma esses objetos em signos, descontextualizando-os e criando uma nova realidade visual, substituindo a sua presença pela sua representação, mas de uma forma provocante e perturbadora. O artista aprofunda e secciona um repertório da presença icônica desses elementos ambíguos na adoção de sua experiência de vida, fornecendo-lhes um novo conteúdo, uma ressignificação, um mergulho instigante em um mundo cifrado por elementos urbanos e rurais.

Na escala expansiva da superfície da tela, a sua pintura é concebida em várias camadas, sobreposições quase monocromáticas e adquire uma opacidade em que o efeito da pincelada, pelo uso da tinta acrílica, vai sendo aos poucos apagado, esvanecido, como algo prévio que precisa ser escondido. As imagens se acumulam na superfície da tela, sem hierarquia ou unidade de tempo, mas com diferentes significados entre si. Existe ainda a presença de uma troca entre diferentes linguagens e procedimentos, como o desenho, a pintura e a escultura. A engenhosidade dos desenhos prévios é um elemento importante para o resultado estético de sua obra.

A especialização em pequenos estudos minuciosos evidencia trabalhos que saem uns dos outros e adquirem caminhos diferentes. Nessa ambiguidade existente nas superfícies planas e no volume escultórico, predomina uma independência dos elementos entre si, uma disjunção entre as partes. Sua obra manifesta uma insistência no tema da pata de porco e nos chifres de boi, que se reproduzem e se deslocam com acréscimo de novos elementos, na forma tridimensional – esculturas moldadas sob uma noção dos mecanismos duchampianos de apropriação de objetos existentes. Na sua edição de fragmentos de um corpo, seja de chifres ou de patas de porco suspensos sob tensão, calibrados e chumbados por cabos de aço e bases de concreto, o artista tenta recuperar a intensidade da obra, o volume desse corpo dentro do espaço, e agora exibe o seu conflito de forças, interagindo na relação com o espaço da galeria e seus componentes: desenha, disseca e articula a relação entre as peças, traz uma linha de força que passa pela roldana e pelos pesos, como pontos de força que são devidamente distribuídos.

O artista interage com o espaço da galeria e os campos de força ganham potência, tanto no campo pictórico como no espaço escultórico. Esses fragmentos do corpo são o agente do  espaço, presenças enigmáticas, que tecem um imprevisível diálogo visual, um sistema de signos que necessita ser ainda decifrados.

VANDA KLABIN

A trained architect, Andrew Griffo creates his personal mythology as he nourishes himself from his own experience. He uses a very expressive vocabulary in his artistic process by adopting everyday objects, built in harmony with industrial materials. His work explores themes involving a complex partnership between man and nature, transfigured objects related to the artist’s personal experiments. These are impregnated with a psychological charge by incorporating subjectivity in their visual plane and using a fusion of different elements such as animals, grids, spears and medieval weapons, Greek columns, and helmets, among others.

The artist creates meaningful nuclei that are incorporated into his work by manipulating pre-existing images in his search for an ongoing dialogue among the different elements found in construction material stores and junkyards. His works remind us of vestiges of urban and rural settings where the artist adds aesthetic value to the fragments and objects essential to the composition of his work. André Griffo creates an artistic repertoire whose component is the concretization and alteration of the nature of objects. From molding some objects preserved in coarse salt and perfurated, he creates an impression of fragments of an animal body, which takes on a predominant form as a matrix that the artist reproduces in its original form, almost like a series of stamps, and reactivated in other ambiances.

 The fragments of the animal body, in their inertia, have their insides torn as a necessary working tool, such as a pig hoof and ox horns, recurring images that pass through a modeling process and become constituent elements of his work, either frozen, covered in plaster, or pricked and then welded with lead.

These objects bring in themselves a kind of muscular tension to the entire surface of the canvas, and alter the primordial form of their nature. The artist then transforms these objects into signs, decontextualizing them and creating a new visual reality by replacing their presence through his representation, but in a a provocative and disturbing way. The artist deepens and bisects a repertoire of the iconic presence of these ambiguous elements by adopting his life experience, providing it with new content, new meaning, and an exciting plunge into a world epitomized by urban and rural elements.

On the expansive range of of the canvas’ surface, his painting is created in several layers, monochromatic superimpositions, and they acquire an opacity in which the effect of the brush strokes, by using acrylic paint, is gradually erased, vanishing like some previous thingthat needs to be hidden. The images accumulate on the surface of the canvas without preference or unity of time, but with different meanings among themselves. Also present is an exchange among different languages ​​and processes, such as drawing, painting and sculpture. The ingenuity of the previous drawings is an important element for the aesthetic result of his work.

Specialization in small detailed studies reveals works that come out of each other and acquire different directions. In this ambiguity, there exists on the flat surfaces and sculptural volume the predominant independence of the elements from each other, a disconnection between parts. His work expresses an insistence on the pig’s hoof and ox horn theme, which reproduce themselves and move with the addition of new elements in a three-dimensional shape—sculptures molded along the lines of the Duchampian mechanism of appropriating existing objects. In his impression of body fragments, whether horns or pig hooves suspended under tension, calibrated and fastened by steel cables and concrete bases, the artist attempts to regain the intensity of the work, the volume of this body within the space, and now displays its conflict of powers interacting in relation to the gallery space and its components: he draws, dissects and articulates the relationship among the pieces, brings a power line that passes through a pulley and weights as points of power that are duly distributed.

The artist interacts with the gallery space and the force fields gain power in the pictorial field as well as in the sculptural space. These body fragments are the agent of the space, enigmatic presences, weaving an unpredictable visual dialogue, a system of signs that still need to be deciphered.

VANDA KLABIN