ExposiçõesExhibitions . 2014 . ALEXANDRE MURY . EU SOU A PINTURAALEXANDRE MURY . I am the painting

A pintura é a ação. O corpo, a superfície sobre o qual o artista plasma tintas, faz colagens, superpõe panos e adereços. Ele é sujeito e objeto da obra. A fotografia é parte da construção e torna tangível o instante, a pose, o travestimento de natureza efêmera. As imagens ambíguas e transgressivas se servem do jogo de palavras, fantasias e recursos do corpo que encarna sentimentos, desejos e sonhos, supostamente não seus.

Os tableaux vivants de Alexandre Mury usam a parodia e o pastiche para encenar uma outra historia, outra arte, a partir de referencias célebres da pintura e da cultura em geral. Eles resultam de um processo ao qual o artista se entrega durante dias de árdua e meticulosa preparação de cenários, figurinos, maquiagem, para criar o simulacro fantasioso no qual se imerge corpo e alma.

O original não existe. Já se foi há muito no mundo de imagens virtuais com as quais o artista convive em suas viagens pelo web, onde tempos e lugares se confundem em uma simultaneidade desnorteante. Navegando nesta fonte infinita, Mury elege imagens icônicas com as quais estabelecer um dialogo, uma relação que inclua o olhar do observador em um jogo triangular. Na articulação de uma linguagem própria, ele aproxima imagens cultas e triviais, sacras e profanas, sublimes e banais, que superpõem mundos diversos e solicitam a memoria do espectador/interlocutor para a produção de sentido. A arte fala sobre a arte, o presente desliza no passado e vice-versa. É neste caráter dialógico da obra, que o artista escreve seu próprio tempo e identidade.

Mury promove a discussão das noções tradicionais de feminino e masculino nas imagens que testam os limites da androginia visual. Os travestimentos põem à prova o corpo do artista em sua identidade de gênero, raça, sexo: mulher-barbada, homem-cactus, morto-vivo, representação negra de figuras brancas. Ele empreende uma leitura carnavalizada – no sentido de mundo às avessas, definido por Michail Bakhtine – dos ícones da cultura e dos grandes personagens das letras, da história, da religião, da mitologia, feita com roupas, perucas, atributos postiços. O resultado é uma identidade duplicada, fragmentada e multiplicada em pseudo-autorretratos que a cada vez nos dão um rosto diverso, outra pessoa, outra historia, outra cor.

Para a nova série de trabalhos, Mury decide buscar na cor mais um fio condutor para suas experiências. Mas, afinal, o que é a cor? é luz ou matéria? Coisa ou pintura? Vibração ótica ou tecla de uma escala cromática espiritual, como queria Kandinsky? Na medicina de Hipocrates, a teoria do humores apontava a biles negra como razão da melancolia e a biles amarela, a da cólera. Ao tipo sanguíneo, avermelhado nas feições, eram atribuídas características de otimismo e alegria.

Além das vibrações luminosas e da experiência sensorial, as cores trazem consigo uma historia filosófica, politica, marcada por mudanças constantes ao longo da historia e significados opostos segundo a cultura, propondo outro universo de ambiguidades. O vermelho é cor eclesiástica ou da paixão carnal? É emblema da realeza ou das revoluções? Em sua investigação, Mury entrega-se com rigor à limitação monocromática, mesmo sabendo de antemão que para um “modelo vivo” a experiência jamais será total. Busca referencia em Whistler, Klimt, Kupka, Kokoschka, Picasso, Djanira, elegendo obras que trabalham a cor de maneira particularmente significativa. A adoção da monocromia inibe a exuberância colorística do trabalho anterior forçando-o a uma postura mais analítica, à indagação das características primordiais de definição da forma plástica e do volume, dos segredos do claro-escuro e das gamas cromáticas. Ele se submete à subtração de um vitalismo espontâneo em prol da reflexão e constrição às limitações de cada cor, às exigências de cada uma para que a forma e contornos sejam percebidos.

Em poucos anos Mury marcou para si um lugar singular e inconfundível no panorama das artes, jogando com a transgressão aos códigos sociais e o desafio à solenidade repressora dos cânones culturais. Adotou no seu trabalho um léxico de elementos corriqueiros, prosaicos e jocosos, com os quais compôs uma linguagem própria que flerta com o kitsch, abusa do nomadismo identitário que caracterizou a cultura Pop e aposta na liberdade fecunda e regeneradora da arte.

ELISA BYINGTON

A pintura é a ação. O corpo, a superfície sobre o qual o artista plasma tintas, faz colagens, superpõe panos e adereços. Ele é sujeito e objeto da obra. A fotografia é parte da construção e torna tangível o instante, a pose, o travestimento de natureza efêmera. As imagens ambíguas e transgressivas se servem do jogo de palavras, fantasias e recursos do corpo que encarna sentimentos, desejos e sonhos, supostamente não seus.

Os tableaux vivants de Alexandre Mury usam a parodia e o pastiche para encenar uma outra historia, outra arte, a partir de referencias célebres da pintura e da cultura em geral. Eles resultam de um processo ao qual o artista se entrega durante dias de árdua e meticulosa preparação de cenários, figurinos, maquiagem, para criar o simulacro fantasioso no qual se imerge corpo e alma.

O original não existe. Já se foi há muito no mundo de imagens virtuais com as quais o artista convive em suas viagens pelo web, onde tempos e lugares se confundem em uma simultaneidade desnorteante. Navegando nesta fonte infinita, Mury elege imagens icônicas com as quais estabelecer um dialogo, uma relação que inclua o olhar do observador em um jogo triangular. Na articulação de uma linguagem própria, ele aproxima imagens cultas e triviais, sacras e profanas, sublimes e banais, que superpõem mundos diversos e solicitam a memoria do espectador/interlocutor para a produção de sentido. A arte fala sobre a arte, o presente desliza no passado e vice-versa. É neste caráter dialógico da obra, que o artista escreve seu próprio tempo e identidade.

Mury promove a discussão das noções tradicionais de feminino e masculino nas imagens que testam os limites da androginia visual. Os travestimentos põem à prova o corpo do artista em sua identidade de gênero, raça, sexo: mulher-barbada, homem-cactus, morto-vivo, representação negra de figuras brancas. Ele empreende uma leitura carnavalizada – no sentido de mundo às avessas, definido por Michail Bakhtine – dos ícones da cultura e dos grandes personagens das letras, da história, da religião, da mitologia, feita com roupas, perucas, atributos postiços. O resultado é uma identidade duplicada, fragmentada e multiplicada em pseudo-autorretratos que a cada vez nos dão um rosto diverso, outra pessoa, outra historia, outra cor.

Para a nova série de trabalhos, Mury decide buscar na cor mais um fio condutor para suas experiências. Mas, afinal, o que é a cor? é luz ou matéria? Coisa ou pintura? Vibração ótica ou tecla de uma escala cromática espiritual, como queria Kandinsky? Na medicina de Hipocrates, a teoria do humores apontava a biles negra como razão da melancolia e a biles amarela, a da cólera. Ao tipo sanguíneo, avermelhado nas feições, eram atribuídas características de otimismo e alegria.

Além das vibrações luminosas e da experiência sensorial, as cores trazem consigo uma historia filosófica, politica, marcada por mudanças constantes ao longo da historia e significados opostos segundo a cultura, propondo outro universo de ambiguidades. O vermelho é cor eclesiástica ou da paixão carnal? É emblema da realeza ou das revoluções? Em sua investigação, Mury entrega-se com rigor à limitação monocromática, mesmo sabendo de antemão que para um “modelo vivo” a experiência jamais será total. Busca referencia em Whistler, Klimt, Kupka, Kokoschka, Picasso, Djanira, elegendo obras que trabalham a cor de maneira particularmente significativa. A adoção da monocromia inibe a exuberância colorística do trabalho anterior forçando-o a uma postura mais analítica, à indagação das características primordiais de definição da forma plástica e do volume, dos segredos do claro-escuro e das gamas cromáticas. Ele se submete à subtração de um vitalismo espontâneo em prol da reflexão e constrição às limitações de cada cor, às exigências de cada uma para que a forma e contornos sejam percebidos.

Em poucos anos Mury marcou para si um lugar singular e inconfundível no panorama das artes, jogando com a transgressão aos códigos sociais e o desafio à solenidade repressora dos cânones culturais. Adotou no seu trabalho um léxico de elementos corriqueiros, prosaicos e jocosos, com os quais compôs uma linguagem própria que flerta com o kitsch, abusa do nomadismo identitário que caracterizou a cultura Pop e aposta na liberdade fecunda e regeneradora da arte.

ELISA BYINGTON